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	<title>outras prosas &#8211; Thássio Ferreira</title>
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	<title>outras prosas &#8211; Thássio Ferreira</title>
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		<title>fé cega, faca amolada</title>
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		<dc:creator><![CDATA[thassio]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Jan 2026 00:34:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[outras prosas]]></category>
		<category><![CDATA[revista vício velho]]></category>
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					<description><![CDATA[(um conto de oficina para para Ana K, Bituca e Gal)]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p class="has-text-align-justify wp-block-paragraph">Eu andava à procura de Deus — e me indagava se Ele andaria à minha procura, pra tanta gente sinais em profusão, esse fervor nas gargantas, teimosias que lembravam a infância, como diabos (ops) nos havíamos desprendido uma do Outro?</p>
<p class="has-text-align-justify wp-block-paragraph">A mãe, que Ele a tenha, sempre dizia ser no tombo do caixote que a gente valoriza o fôlego. E haja caixote ultimamente, parecia. Terapia ajudava, claro, os voos sem amarras na oficina de escrita também, mas era como se os pulmões quisessem inspirar algum fôlego maior que não vinha, sabe? Cadê?</p>
<p class="has-text-align-justify wp-block-paragraph">Quem não viveu aquele outubro nunca vai saber, da agonia em cada esquina, do estrago de quatro anos e a sombra de mais, como pode, aquela falta de Deus era diferente da minha, tão cheia do Nome nas bocas mas tão sem Ele nas mãos, acho que só fazia aguçar minha busca, por favor, e ainda guerra quase nuclear, e ainda incêndio na floresta, o trem de tudo descarrilhado e tome labuta, no bolo de areia e sal generalizado eu me agarrando em algas pra conseguir dar aula, tentar ser horizonte em vez de engrossar o caldo das seis turmas acumuladas porque a Lola não tinha dado conta, pediu licença.</p>
<p class="has-text-align-justify wp-block-paragraph">Então assim: na correria coletiva eu pendurava meus sufocos pessoais, enquanto por baixo a correnteza, clarão de sol e fundo de mar, onde Deus, porra, se ao mesmo tempo não não não não podia ser nas línguas tortas desses muitos, mas devia de sim na força pedra de muitas outras, teimando sorriso e partilhando o pão, lá na turma da sopa, no pré-vestibular noturno, na ocupação da Evaristo.</p>
<p class="has-text-align-justify wp-block-paragraph">Eu procurava. Quem procura acha, a mãe dizia também. Passei a botar reparo nele, com cuidadinho, tentando observar, já que padre, por coincidência meu aluno, um talvez, uma chance, como diz a Bíblia mesmo? O caminho, a verdade e a luz? Vai que. Mas quase sempre calado, bem (cor)retinho. Até quarta-feira.</p>
<p class="has-text-align-justify wp-block-paragraph">Atrasada pra aula, mas a tempo do encontro, que acontece sempre na hora justa, ou não acontece. Não pesquei sobre o que conversavam. Ao entrar na sala e deixar a bolsa sobre a mesa, tive meu bom dia respondido por ele com o olhar em arco, dos colegas até mim: “Não, assim, não tenho nada contra homossexuais; tenho amigos que até são.” Terminou de falar e ficou me encarando, aparentemente na espera de uma resposta. Padres devem ter um apreço especial pela hierarquia. Atenção atenção, falei, agora tu, Professora.</p>
<p class="has-text-align-justify wp-block-paragraph">Dois mil e vinte e dois. E ainda esse discurso que chega a parecer irreal de tão encaixado, as m-e-s-m-a-s palavras, lenga-lenga de apesar de, que até isso, até aquilo, nada contra, nada contra mas um nada carregado de tanto que não se diz. A bondade uma soberba. Concedo-te a graça da minha amizade, e por ela eu te salvo.</p>
<p class="has-text-align-justify wp-block-paragraph">O cansaço carburou-se chama, expandindo desde o estômago até o palato. Contra o que ele não dizia nas frestas daquele nada contra, eu haveria de dizer. “Pois não se preocupe, muitos homossexuais têm amigos que até são heteros, até padres!, e também não têm nada contra vocês.”</p>
<p class="has-text-align-justify wp-block-paragraph">Depois, vieram-me imagens. Jesus expulsando os vendilhões do templo, lavando os pés dos discípulos, defendendo Madalena. Mas isso eram histórias, as que se contam desde muito tempo pra tentarmos entender e passar adiante o que na hora foi apenas certeza no miolo da afronta, sem narrativas: Deus.</p>
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		<title>drops de prosa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[thassio]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 24 Aug 2025 18:39:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[outras prosas]]></category>
		<category><![CDATA[revista vício velho]]></category>
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					<description><![CDATA[#

Num dia verde, porque verde é a cor da cura, acordou e voltou a ter vontade de viver. Foi feliz, por um tempo. Movia-se, como um gato. Depois entristeceu de novo.
...]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>#</strong></p>
<p>Num dia verde, porque verde é a cor da cura, acordou e voltou a ter vontade de viver. Foi feliz, por um tempo. Movia-se, como um gato. Depois entristeceu de novo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong># do cacto</strong></p>
<p>— Olha, mana.</p>
<p>— Tá minando…</p>
<p>— Será se é água mesmo?</p>
<p>Primeiro o dedo na pocinha, quase encabulada ainda de escorrer pouco a pouco sobre o concreto. Na língua a surpresa, e desce o dedo até a gota e engordando pendente do cacto. Ele sente o mesmo arrepio gostoso que a irmã, antes que ela diga.</p>
<p>— Tem gosto de… mel.</p>
<p>— Deixa eu provar.</p>
<p>Raspa o dedo no áspero. Lambe.</p>
<p>— A gente conta pra mãe?</p>
<p>— Mas ela não vai sentir o gosto…</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>#</strong></p>
<p>Perdoar deus por nos ter existido: esta doência infinda delícia, como um clarão no mais fundo escuro onde nem mais palavras como clarão, escuro ou qualquer outra têm sentido que dirá sentimento.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong># frases de um fim de semana</strong></p>
<p>“enquanto eles tavam no Togo, a menina foi ao banheiro e nunca mais voltou”</p>
<p>“esfregação genital é opcional”</p>
<p>“eu lembro de um aniversário do Félix&#8230; eu nem tava nesse aniversário”</p>
<p>“tá mais tirulim que pan”</p>
<p>“é a regra do quintal, mana, não a tua. tem que respeitar a regra do lugar.”</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>#</strong></p>
<p>Não é que eu buscasse uma transcendência qualquer nos corpos em que antes buscava apenas sofreguidão. Mas algo sobre eles, além de si próprios, agora me interessava. Melhor: instigava. Inquiria sobre o além daqueles corpos.</p>
<p>E o carnaval mal havia começado.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>#</strong></p>
<p>— Nao é acarajé, é bolinho de Jesus.</p>
<p>— É o quê?</p>
<p>— Bolinho de Jesus.</p>
<p>— Ah, vai se foder — eu não disse, porque afinal é preciso ser didático e preferir a comunicação não-violenta, mas antes que eu não dissesse, pude quase ver-me, claroaguda, a dizer. Contive-me, a custo e calma, e o que disse então, com certa dose tentativamente calibrada de irritação na voz, porque afinal também não sou santa, e além do mais, um quê de tome-tenência me facilitaria o trabalho, o que eu disse então foi:</p>
<p>— Olha, mona, eu respeito a tua religião e tu respeita a minha, ora veja!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>#</strong></p>
<p>De noite tinha os sonhos mais prosaicos. Nunca voava, nem comia estrelas (de cinema ou nêutrons), não visitava Istambul entendendo-se com todos à sua volta numa língua inexistente. Facas do dia a dia, diálogos sem tesão, lampejos, lacunas, as plantas do quintal, com seus nomes mesmo, era dos restos mais baços de quando acordado a carne dos seus sonhos. Triste</p>
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		<title>Stella e Carolina</title>
		<link>https://thassioferreira.com/stella-e-carolina/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[thassio]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 23 Jul 2025 00:58:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[+poesia]]></category>
		<category><![CDATA[outras prosas]]></category>
		<category><![CDATA[revista vício velho]]></category>
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					<description><![CDATA[desdobrando pensamentos a partir de Stella do Patrocínio e Carolina Maria de Jesus]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>Stella e Carolina</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Talvez que desdobrar pensamentos e(m) linguagens seja um jeito de viver.</p>
<p style="text-align: justify;">Ando ouvindo Stella do Patrocínio. Literalmente. Internada por anos em um hospício no Rio de Janeiro, este ano entraram em domínio público os áudios com seus <em>falatórios</em>, como ela mesma designava os momentos nos quais se desabalava em palavras, pura poética. Desses áudios a poeta e filósofa Viviane Mosé derivou um livro, arranjando em versos a voz de Stella.</p>
<p style="text-align: justify;">Com quais tradições você se identifica? A tradição do pensamento que desemboca na maioria de nós, brasileiros letrados, tem um ranço hoje muito questionado, mas que assim como tantos ranços do Brasil e do mundo, permanece, entranhado, difícil de metabolizarmos em outra coisa: o de achar que nossos instrumentos de convívio evoluem sempre, seta apontada para algo melhor, novidades superando o passado. A linguagem escrita como superior à oral. Balela, besteira, blábláblá, que outras tradições acusam e refutam.</p>
<p style="text-align: justify;">A poesia, como expressão, torção e construção da linguagem, é anterior mesmo à língua falada, não me acanho em afirmar. Pinturas rupestres, dança, dengos, sabe-se lá que formas poéticas queimaram e se perderam no tempo. Depois, as palavras. Depois, a grafia. Hoje, simultaneidades, convivência. A poesia escrita, versos visíveis, a mancha gráfica, apenas maneiras diferentes de poetizar. Uma(s) outra(s), dentre muitas. Alteridade, não superioridade.</p>
<p style="text-align: justify;">Outros ranços: a convicção de que mover-se ajustadamente dentro dos parâmetros sociais em muito absurdos, mas padronizados, seria mais saudável, mais corretos até, do que outros modos de movimento; a lógica do lucro; a primazia do produtivismo.</p>
<p style="text-align: justify;">No áudio passado-e-presente-ao-mesmo-tempo, (a psicóloga?) pergunta a Stella <em>Você não tem vontade de produzir alguma coisa, de ganhar dinheiro?</em> <em>Eu tenho vontade de ganhar dinheiro. Mas não tenho vontade de produzir</em>. Ganhar dinheiro pra saciar a fome, sim, afirma mais à frente. Mas produzir? Pra quê? Por que esta é uma preocupação tão explícita de quem, em nome da sociedade &amp; da sanidade, a interroga? Deixa Stella <em>pastar à vontade, que nem um camelo</em> como ela quer.</p>
<p style="text-align: justify;">Em outro trecho, indagada, Stella contra-indaga <em>“Me casei” como? “Casada” como? “Morou junto com homem” como? </em>Como a perguntar o que queremos dizer quando usamos certas convenções linguísticas corriqueiras. O corriqueiro, afinal, não é (um)a verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">Escolho trechos “não tão poéticos” (não?) porque assim como a poesia falada é tanto quanto a escrita, a que não se pretende pode ser tanto quanto a intencional. Tanto tanta tão: poesia filosofia reflexão lindeza coisa sem nome que vale a pena. Um reino.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Deus tá no céu em toda parte</em>. Existe ali uma vírgula? Corto – edito – avanço. <em>Não tenho voz pra cantar mais</em>. Corto, avanço: edito? Stella parece refratária. Diz que lhe comem com os olhos. <em>Quando eu tenho muita vontade de falar não encontro ninguém, quando não tenho voz vocês aparecem</em>. <em>Eu não queria me formar, não queria nascer, não queria tomar forma humana, carne humana e matéria humana</em>. Esquiva para exibir, diz não entregando, sinuosa, um sim, que todavia, ainda, não é. O em baixo da língua(gem).</p>
<p style="text-align: justify;"><em> </em></p>
<p style="text-align: justify;">Carolina Maria de Jesus é o em (riste) cima da língua. Por sobre os monturos, por sobre si própria, seta certeira. <em>Quarto de despejo</em>, além de atual, impactante e interessantíssimo, integra a categoria fictícia dos livros necessários — na real não existem obras imprescindíveis, mas umas são menos incontornáveis que outras.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos pontos de partida possíveis para adentrar sua complexidade é justamente a elaboração narrativa e estilística que faz da realidade. Se Stella, até onde sabemos, nunca escreveu um poema sequer, elaborando magipoeticamente a realidade que sentia de forma exclusivamente oral, para Carolina a literatura, com todos os códigos de sua tradição, é uma fome, tão premente e presente quanto a do corpo. Não quer ser, e não é, denúncia pura. Absolutamente tudo o que constrói o conceito convencionado de literatura &amp; escritora, e das boas, está nela e seu <em>Quarto</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Entremeando a força brutal do que se conta e a latência do que se cala, pulsam ficções subjetivas — algumas, desejantes, mais evidentes; outras que apenas podemos imaginar. Costurando o todo, suas escolhas e limites (conscientes ou inconscientes, não importa), do quê e como selecionar, justapor, destrinchar, desdobrar, luzir até.</p>
<p style="text-align: justify;">Tão fascinante quanto a própria construção da linguagem que pratica é a construção simbólica de autoimagem que a escrita dela, nela(-Carolina) e em si(-na escrita) perfaz e evidencia — em depoimento posterior ao livro, afirma: <em>O que eu sempre invejei nos livros foi o nome do autor. E li o meu nome na capa do livro. Fiquei emocionada</em>. O livro tangível, o nome legível. Gullar disse que a poesia existe porque a vida não basta. É muito particularmente tocante como Carolina produz sua identidade e subjetividade, o sentido de sua vida, a partir da escrita.</p>
<p style="text-align: justify;">A par das faces opostas sobre a relação de cada uma com a literatura/com a escrita, há paralelos. Dentre cerca de vinte cadernos, foi um jornalista quem pinçou os trechos que compõem o <em>Quarto</em>. Atentar para essa dinâmica — classista, sexista e racista, desde os 50/60, quando a obra foi gestada, até os 90, quando o jornalista-editor escreveu o prefácio à minha edição do livro — não diminui a obra nem a autoralidade visceral de Carolina, mas pode desdobrar nossas leituras presentes, como ouvir a voz de Stella desdobra suas falas.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez que desdobrar as simultaneidades e(m) espelhos do tempo também seja um outro jeito de viver.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><em>(publicado originalmente na <a href="https://viciovelho.com/2022/05/15/stella-e-carolina/">Vício Velho</a> em um certo maio, mês da luta antimanicomial e da abolição formal da escravidão no Brasil. os &#8220;falatórios&#8221; de Stella e respectivas transcrições podem ser acessados no site do <a href="https://museubispodorosario.com/stella-do-patrocinio-memorias/">Museu Bispo do Rosário</a>)</em></p>
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		<title>As formas fugazes que talvez tivéssemos</title>
		<link>https://thassioferreira.com/asformasfugazes/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[thassio]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Jul 2025 00:47:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[+poesia]]></category>
		<category><![CDATA[outras prosas]]></category>
		<category><![CDATA[revista vício velho]]></category>
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					<description><![CDATA[pequena meditação, um tanto delirante, sobre os livros "A forma fugaz das mãos" (Fábio Pessanha) e "Todos os nomes que talvez tivéssemos" (Guilherme Gontijo Flores)]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>As formas fugazes que talvez tivéssemos</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Escrever <em>sobre</em> é diferente de escrever. Ainda assim, ainda o é. À primeira escolha (a mesma, de certa forma): sobre <em>o quê</em>, hesito — a hesitância é uma velha amiga. Não entre o que propriamente me atravessa, mas entre os que me fecundam. Sobre: o que em mim se multiplica. Quando: quero. Como: Consigo. Então, vou-nos.</p>
<p style="text-align: justify;">Sophya de Mello Breyner Andresen e João Cabral de Melo Neto conheceram-se em Sevilha, salvo engano. Tinham visões diametralmente opostas sobre a poesia e as maneiras de escrevê-la. A dama do mar dizia que escutava poemas quando criança, antes de saber que alguém os havia escrito, e portanto a poesia se fizera nela como entidade, quase. Os poemas baixavam em si, perto de prontos, soprados, psicografados: mistérios de palavras. João, construtor de securas, não acreditava em inspiração e trabalhava meticulosamente, cada dia, no que estivesse a criar, desenhando para os olhos quase-equações da língua, correlações: engenharias. Disciplina, disciplina, disciplina: catar feijão.</p>
<p style="text-align: justify;">Sophia e João tornaram-se bons amigos e admiradores mútuos. Dedicaram-se poemas, respeitavam o que nascia do processo particular alheio, sabiam: em arte, é difícil parir verdades absolutas.</p>
<p style="text-align: justify;">Releio, porque desejo escrever algo <em>sobre</em>, <strong>A forma fugaz das mãos</strong>, de Fábio Pessanha. Mistérios que não compreendo, poemas que meu pensamento estranha, paisagens sonoras, passagens de uma plasticidade retorcida em origami. <em>dizer um poema / como conceber / um ato incendiário</em>. Algo de mantra nesses versos, não só pelo sentido, mas repare: um <em>m</em> que se insinua, atravessado em meio em dois <em>oms</em>, espraiando-se em <em>as</em> abertos, findando no sopro de um (pav)<em>io</em>. <em>escrever como / se o céu não existisse e cada / palavra fosse um golpe na sintaxe / (&#8230;) até que o orgasmo / rompesse com o enigma / dos meus gemidos</em>. <em>transito pelo labirinto</em>, Fabio diz, eu leio, ouço, aposso-me: ele não é o único. Há quanto tempo perco-me mais nas texturas de chapisco &amp; hera dos labirintos do que no manejo de faca &amp; formão tentando aclará-los? Deito-me — para depois: um novo dia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>(Interlúdio fora de ordem:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Um teixugo</p>
<p>sentou-se num sabugo</p>
<p>no meio do refugo</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Por que</p>
<p>afinal?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O lunático</p>
<p>segredou-me</p>
<p>estático:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O re-</p>
<p>finado animal</p>
<p>acima</p>
<p>agiu por amor à rima</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O teixugo estético, de Christian Morgenstein,</p>
<p>por Haroldo de Campos</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Quem quiser entenda: a linguagem é bem mais que transmitir discursos informacionais &amp; racionais. Ou como nos canta Wilberth Salgueiro: por associação acústica, o gesto poético pode se sobrepor a sentidos mais lógicos ou decodificáveis. Salgueiro continua, sobre concepções de poesia metafísica, irracionalista, transcendental, <em>versus</em> outras cerebrais, cartesianas — mas disso eu já falei. O que acrescento: a poesia que te encanta deve ser deleite (ainda que o deleite difícil de um desafio). Somos tantas e tantos, não creia em quem lhe diga que este poeta ou aquele livro são imprescindíveis. Ninguém <em>tem que</em> ler nada. Fim do interlúdio.)</p>
<p style="text-align: justify;">Dia seguinte, <strong>Todos os nomes que talvez tivéssemos</strong> começa a me desconcertar. Tijolo. Tetralogia. Quatro livros de Guilherme Gontijo Flores reunidos em um. Sob o signo da diversidade, cerca de trezentas e trinta e três páginas ­— inexato, a mim vale mais o valor al(i)terado: dança délfica desnovelando o cânone &amp; o contemporâneo, fragmentando fios em grãos, para depois-ao-mesmo-tempo os refundir, transfundir, (confundir) (a quente &amp; a frio) em novos cacos de novos espelhos.</p>
<p style="text-align: justify;">A formação do vidro é uma questão cinética, por depender estritamente do tempo, calibrado para que seus átomos não se (re)ordenem muito. Sólidos cristalinos apresentam um padrão de simetria na composição molecular. O vidro, modo diverso, é de estrutura desordenada. Que eu me organizando posso desorganizar Que eu desorganizando posso me organizar, cantou Chico (o Science, não o outro).</p>
<p style="text-align: justify;"><em>poesia é comer o cu do silêncio</em>, escreve Flores, <em>pós-moderno de plantão</em>, <em>ofertando — uma / forma de / benção — a promessa impossível do sentido</em>. <em>a ametista desabrocha / seu veio / feito falha / incrustada na druxa /esdrúxula / no cerne do fracasso do granito</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Por muito tempo, a poesia se preocupou mais em organizar os sólidos das palavras, construir cristalinos (ainda que deslocando imagens e sentidos). Depois, despreocupou-se, transparecendo em vidros remix de tempos &amp; conjugações, libertando o aprendizados das escolas. Nada contra calcular (salve, João!), nada contra incorporar (a benção, Sophia!), e mesmo toda e qualquer desestruturação tem um tanto de ordenamento intencional e um tanto de chama nova, inapreensível. Mas a mim o jogo fica mais divertido quanto mais brincante, entrelaçando formas fugazes às mãos, aliterando todos os nomes que talvez (ou não) tivéssemos, lambendo as palavras e depois se alucinando — feito fossem barros, (de) manoel.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Poesia é voar fora da asa.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>E para que serve a poesia? Para nada. Porque a vida não basta.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>— publicado originalmente na <a href="https://viciovelho.com/2022/02/22/as-formas-fugazes-que-talvez-tivessemos/">revista Vício Velho</a></em></p>
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		<title>Nunca estivemos no Kansas / poemas para onde nunca estivemos</title>
		<link>https://thassioferreira.com/nunca-estivemos-no-kansas-poemas-para-onde-nunca-estivemos/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[thassio]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 08 Feb 2025 03:21:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[+poesia]]></category>
		<category><![CDATA[outras prosas]]></category>
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					<description><![CDATA[No verão em que lancei meu livro de contos, "Nunca estivemos no Kansas", a prosa-título e alguns poemas-diálogo, tudo junto e misturado]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>Nunca estivemos no Kansas</strong></p>
<p style="text-align: right;"><em>para nós</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">— Deixa os caras</p>
<p style="text-align: justify;">ele diz, e não consigo pontuar sua fala, entre a ordem nítida e talvez algum medo. Levantado contra o sol, na praia que de muitos modos fermenta como intestinos, é difícil distinguir seus traços sobre o corpo largo, mesmo a poucos metros. Estamos sempre tão perto no verão desta cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes: eu já notara o grupo de garotos, bebendo e falando alto, a zoeira preenchendo os abertos feito o calor, sem clemência. Pareciam querer desafiar a própria tarde, quixotes carregados de ímpetos nem tão cavalheirescos. Fermentavam também. A vários momentos, um bordão revinha às bocas, entre gestos inquietos: que eram filhos do sujeito. O presidente, aquele. Altos brados e risadas: Filhos dele, filhos do sujeito!</p>
<p style="text-align: justify;">Eu oscilava entre mim mesmo e o redor. Como sempre, como tantos, talvez.</p>
<p style="text-align: justify;">A dança caótica das moléculas do universo: perto, então, da molecada, chegam dois homens, com uma criança pequena, guarda-sol e o acaso mesclado à areia dos tornozelos. A zoeira se insinua, desenhando diante de si, daquelas moléculas de carne, ossos, músculos e pele, um alvo mais palpável que os átomos gasosos do céu azul. Provocam, tom acima a tom acima. Os homens a princípio não parecem perceber, entretidos consigo mesmos, a criança e sua língua estrangeira. A molecada insiste, chama-os assobiando, e quando olham: um requebra-se em trejeitos, emendando com socos batidos contra a palma da mão, imitações de chutes, rasteiras, antes de encerrar sua performance rumo aos tapinhas e risos dos companheiros, repetindo aos brados: Filho dele!</p>
<p style="text-align: justify;">No mais das vezes, hostilidade não requer tradução. Os homens falam entre si, mais baixo do que faziam antes, e olham em volta: como quem busca. Tudo tão perto e tão veloz nesses verões. Feito aumentassem a aposta, alguns dos garotos se juntam em pé ao mímico da vez, já sem nenhum trejeito: saem da própria roda, encarando agora mais de perto aqueles desenhados em alvo pela fermentação dos ódios, dos desprezos, do escuro que em alguns de nós subsiste ao mais potente sol. Os queixos se erguem, sustentando rostos afiados em desafio.</p>
<p style="text-align: justify;">Um deles posta-se resoluto frente ao grupo. Outros dois avançam, passos pequenos, meneando as cabeças pra cima e pra baixo. Talvez os homens, certamente a criança, não entendam a frase com que todos nesta cidade legendariam o gesto: <em>qual foi?</em>, mas o gesto em si dispensa legendas em qualquer língua. Então:</p>
<p style="text-align: justify;">— Deixa os caras</p>
<p style="text-align: justify;">ele diz, por sobre o zumbido da praia fermentando. Em outro con-texto eu provavelmente tivesse desviado o pensamento, à deriva (: preciso fazer feira, ou: que horas são?, ou: e aquela vez em que Seu esperma tem uma cor estranha / É o remédio pra vermes, ou: etc. etc.), mas já não oscilo. Atento. É preciso, às vezes. Ele também, eu sei, gostaria de apenas submergir e abafar as vozes dessa tanta gente espalhada sobre a areia, a terra e o asfalto do mundo. Mas é preciso estar atento. Forte.</p>
<p style="text-align: justify;">(Lembro lutas que não vivi: a mesma praia, anos antes, valentões espancando um rapaz aos urros de Viadinho é daqui pra lá, e ninguém se levantou pra defender o quase menino, não deixar aquela linha urrada a vozes de espuma rábica cicatrizar-se; Stonewall, outra latitude, tempo ainda mais pretérito, agredidas em levante contra não só braços e pernas e cuspe mas cassetetes e armas e fardas e a força que demos às polícias de toda parte desde antes de nascermos, como um pacto que não fizemos, mas espera-se que obedeçamos. É preciso lembrar. Atentos.)</p>
<p style="text-align: justify;">A porra do tempo alongado, esticado feito fronteira: o que há de haver daqui, deste momento agora, pra lá, pro depois? A espera em si mesma como observando do alto: se a linha do tempo vai explodir ou afrouxar, (re)acomodando-se nas areias quentes. O instante (mais que os homens) feito lâmina a decidir se arremete contra as carnes ou retorna à bainha. O tempo fermentando.</p>
<p style="text-align: justify;">E entorna. A porrada come: levanto-me e corro. Não pra longe, mas pro dentro da confusão. Nunca estivemos no Kansas, Dorothy.</p>
<hr />
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>#</strong><br />
primeiro, um saltimbanco<br />
de uma trupe cor de terra<br />
à beira dessa estrada que<br />
não cessamos atravessar<br />
cada dia</p>
<p>depois mais concreto<br />
embora (ainda) esférico<br />
e o cheiro do sol</p>
<p>en-tão</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>#</strong><br />
a cidade sendo lida<br />
pelos pixos em quinas<br />
e planos: cataclisma<br />
d´estéticas cruzescritas</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>#</strong><br />
primeiro pela rodovia<br />
radares, painéis de propaganda<br />
placas apontando<br />
grandes cidades, possíveis desrumos<br />
para onde o horizonte<br />
para ontem<br />
por que amamos tanto<br />
quanto mais o corpo<br />
de asfalto suporta<br />
tanto peso sem<br />
rachar nem chorar<br />
ou mesmo amassar</p>
<p>até que se dobra assim<br />
com carinho à esquerdinha<br />
sapatinho e a estradinha<br />
afunila-se<br />
mas ainda mão dupla, todavia<br />
vai que vem, cumprimenta-se<br />
eia aioba bom dia farol que pisca</p>
<p>uma primeira ponte<br />
passagem para um só<br />
veículo: e naonde outros?<br />
barulhinho de rio<br />
o asfalto rachadinho<br />
empoeirado, se fingindo<br />
de terra, bordado de mato<br />
se embrenhando, querendo<br />
um cadinho desfolhar</p>
<p>segunda ponte guardada<br />
por cancela de sereno<br />
o caminho estreitando<br />
mais na verdade menos<br />
menos menos<br />
verde escuro anoitunelcendo</p>
<p>até que (nunca) chegamos</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Katrina</title>
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		<dc:creator><![CDATA[thassio]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 08 Feb 2025 01:56:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[outras prosas]]></category>
		<category><![CDATA[revista vício velho]]></category>
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					<description><![CDATA[Depois das oficinas de poesia, um conto oficineiro (para Anita Deak)]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>Katrina</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nem bem abri a porta, Katrina se espaventou pela cozinha, chacoalhando as bijuterias, os cabelos anelados, os saltos no piso de cerâmica, suas vogais alongadas ­­— Bom diiiiia, maniiiiinha, como você estááá?</p>
<p style="text-align: justify;">Oito e sete, piscou o relógio digital na parede acima da geladeira. Oito e sete, porra. Fechei a porta com cuidado, evitando mais alarde.</p>
<p style="text-align: justify;">— Estou bem. O que você quer?</p>
<p style="text-align: justify;">— Nooossa, alguém acordamos curta e grossa hoje, hein?! — retorquiu num sorriso de esguelha, um dos cantos da boca mais erguido que o outro. Desde pequena ela sempre foi como ambidestra de rosto: piscar só de um olho, tanto o esquerdo quanto o direito, erguer uma sobrancelha de cada vez, e esses sorrisos assimétricos: pra um lado, pro outro. Às vezes eu tentava imitar no espelho, mas mal e mal conseguia dominar o lado esquerdo.</p>
<p style="text-align: justify;">Desfez o riso passando a língua sobre os lábios enquanto me radiografava de alto a baixo, no meu legging de academia e sutiã. Daí esticou um sorrir diferente, boca fechada, aproximando um cadinho quase nada em diagonal o rosto do ombro direito — a pele bronzeada tão bonita sob a alça do vestido.</p>
<p style="text-align: justify;">— Cadê meu afilhado?</p>
<p style="text-align: justify;">— Já levei na escola. Tô me arrumando pra ir na academia antes do trabalho e&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">— E o Ronaldo?</p>
<p style="text-align: justify;">— Dormindo. Ficou até tarde preparando um relatório, só vai pra empresa depois do almoço.</p>
<p style="text-align: justify;">— Ah. — Pôs a bolsa em cima da mesa, chacoalhando, será que eu precisaria dar um tapa nela pra fazer menos barulho, meu Deus? — E você não vai me oferecer um café, maninha?</p>
<p style="text-align: justify;">— Senta. E fala mais baixo, Katrina.</p>
<p style="text-align: justify;">— Você sabe que eu sou quase fisiologicamente incapaz disso. Até na cama, viu? Lembra do Bruno? Ele adorava transar nuns lugares meio cheios de gente, escondido, banheiro de festa, estacionamento de shopping, eu tinha que morder o braço dele pra não chamar muita atenção.</p>
<p style="text-align: justify;">Oito horas da manhã. Sexo em shopping, e eu nem tinha servido o café ainda. Ronaldo dizia, desde Nova Orleans, que ela fazia jus ao nome. Cada vez mais, ultimamente. O Bruno era um homão, por onde andaria? Num relampeio imaginei a cena: ele de terno, sentado no carro, e Katrina por cima, os cabelos espalhados sobre o bronzeado, nesse mesmo vestido de alcinha. Antes que pudesse afugentar a imagem, o rosto dele era o de Ronaldo.</p>
<p style="text-align: justify;">— E o Paulinho?</p>
<p style="text-align: justify;">Ouvi as unhas bem feitas de uma mão batendo nas da outra, aquele tlac tlac sempre me deixava alerta. Virei-me, ela não sorria mais.</p>
<p style="text-align: justify;">— &#8230; Homem mais novo é foda, Bia. Você que tá bem, com o Ronaldo e o João. O Paulinho me deu um pé na bunda. Ontem. Disse que eu sou demais pra ele. Engraçada essa expressão, né? A gente usa tanto como algo bom, fulano é demais, esse namoro é demais, você tá feliz? demais. Aí vem um e diz que a gente é demais pra ele, sobra, não quer, não aguenta. O babaca não conseguiu nem explicar <em>o que</em> era demais, sabe? Qual parte. Se era assim, minha personalidade, como um todo, você me conhece, ou se era um excesso de carinho, de presença, de querer tá junto. Disse que era tudo. Demais.</p>
<p style="text-align: justify;">— Eu&#8230; (eu também te acho demais, Katrina. Nos dois sentidos. Só que o demais pode ser perigoso) Sinto muito, mana. Você tá bem? &#8230;Você parece ótima!</p>
<p style="text-align: justify;">— Bola pra frente, né?! Lembra do papai, como ele adorava cantar pra gente criança?: levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima! Não vou ficar chorando por causa de homem. Bom, chorei, já. Ontem. Bastante até. Mas hoje é outro dia. Vai passar. Se eu sou demais, tem muita gente aí no mundo pra esparramar meu amor. Você quer que eu te leve na academia?</p>
<p style="text-align: justify;">— É aqui pertinho, eu vou a pé.</p>
<p style="text-align: justify;">— Então eu vou com você. Aproveito e pergunto o preço, se me dão desconto por você já ser aluna. De quebra dou uma olhada na clientela, já que… né?! ­— Piscou do olho direito.</p>
<p style="text-align: justify;">— Você nem mora nesse bairro, Katrina.</p>
<p style="text-align: justify;">Achei que fosse redarguir, mas não. Por um momento&#8230; um hiato. Olhou as próprias mãos e alisou uma veia mais aparente, esticando a pele.</p>
<p style="text-align: justify;">— Não tem problema, é só pra&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">— Por que você não passa aqui no fim da tarde? João vai ter voltado da escola, ele te ajuda a espairecer, vocês podem assistir aquele seriado que ele te falou, Ru Paul´s Drag Race. É a sua cara, várias drag queens desfilando, produzidas, você vai amar. Ronaldo só chega tarde, eu faço pipoca pra vocês.</p>
<p style="text-align: justify;">— Hm. Pode ser. — De novo o sorriso de boca fechada, dessa vez mais curto, antes de borrar o batom na borda da xícara. — Às cinco?</p>
<p style="text-align: justify;">— Às seis é melhor.</p>
<p style="text-align: justify;">Ergueu o braço esquerdo chacoalhando as pulseiras quase até o cotovelo.</p>
<p style="text-align: justify;">— Cinco e meia, pronto! — E se levantou num repente. — Não vou te atrapalhar mais, então. Eu volto de tarde.</p>
<p style="text-align: justify;">Pegou a bolsa e foi destrancando a porta ela mesma. Realongou as vogais ao se despedir:</p>
<p style="text-align: justify;">— Beeeijo, maniiinha! Até logo!</p>
<p style="text-align: justify;">Espaventou-se pelo corredor, batendo os saltos no piso, sem agradecer o café. Pipoca, preciso comprar pipoca.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>— publicado originalmente na <a href="https://viciovelho.com/2021/08/15/katrina-thassio-ferreira/">revista Vício Velho</a></em></p>
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		<title>maestrina &#038; retrato de moça no vagão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[thassio]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 07 Feb 2025 12:17:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[outras prosas]]></category>
		<category><![CDATA[revista vício velho]]></category>
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					<description><![CDATA[duas prosas curtas, pequenos esboços de mulheres]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>Maestrina</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Por vezes ela se empolgava, narrando algo, nesse tesão que nos atiça desde a primeira mulher nascida diferente de sua mãe, assim: humana — sendo evidente que a primeira humana foi mulher, só não me peçam as evidências — e mesmo que a mãe de todas nós ainda não tivesse a linguagem com que narrar e gozar esse tesão que ela nem sabia inaugurar, tenho certeza: também se empolgava, tentando, querendo, inalcançando — o que talvez até hoje a gente siga mais que conseguindo, e talvez até isso seja parte da empolgação, mas ela se entusiasmava como poucos, torrente caudalosa ritmada, palavras como chuva a galope, música sem partitura tecendo-se a partir do próprio movimento dos lábios, ao correr da língua, regente e orquestra inteira no som daquela voz a nossos ouvidos atentos, até que tropeçou:</p>
<p style="text-align: justify;">— &#8230; maestral (!) –– a boca ainda aberta, feito dedo exato na guitarra sem mover-se, bochecha inchada no trompete, arco de violino a meio voo rumo à corda, mão suspensa sobre a pele do tambor. Inclinou levemente a cabeça, em desconcerto:</p>
<p style="text-align: justify;">— Maestral&#8230; Existe essa palavra?</p>
<p style="text-align: justify;">Eu, sedento, interessado mais na música que no sentido, muito!, querendo seguir gozando meu tesão de ouvir como o segundo ser humano (talvez um homem) ouvindo a primeira ser humana em seu gozo de narrar, respondi-lhe breve:</p>
<p style="text-align: justify;">— Isso importa?</p>
<p style="text-align: justify;">Sorriu.</p>
<p style="text-align: justify;">E a música se refez em seus lábios.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Retrato de moça no vagão</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Ela chora, encolhida contra a parede do vagão, apoiada numa perna esticada, tesa, enquanto a outra, semi-flexionada, vibra nervosamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Usa um vestido de Rorcharsch: naquele pranto, o fundo negro do tecido, seu corte reto e certa poeira cinza agarrada à barra dão-lhe ar de angustiado desamparo, quase um luto moderno sob a dor movendo-se sobre a pele. Mas a quem não lhe reparasse o rosto, ou lhe flagrasse em sorriso, num outro dia, num outro vagão, a estampa florida com seus amarelos e laranjas diria em voz risonha algum desenho mais alegre.</p>
<p style="text-align: justify;">Colado ao rosto: o celular. Uma presença que não é bem presença — tão distante e tão próxima (ali, logo ali) do meu olhar pungido — desenha-lhe estampa de aquarela na face, fios d’água escorrendo, os cantos da boca crispados, cabelo desarrumado caindo-lhe um pouco sobre os olhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Fala, abafadamente, tudo é tão abafado neste vagão, e não ouço, como não ouço aquela presença em voz que lhe chega pelo telefone.</p>
<p style="text-align: justify;">Não ouço, mas vejo, em meio a tanta gente que não vê as gentes outras ao redor: ela chora. Uma moça chora à minha frente, no metrô de fim de tarde. Não desvio os olhos, mas por razões diversas das tuas, que percorre essas linhas buscando saber o que aconteceu ou acontecerá em seguida: não preciso entender. Olho-a chorar, apenas, tão misteriosamente humana e incompreensível quanto eu. Até que chega minha estação.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>— publicado originalmente na <a href="https://viciovelho.com/2021/06/11/duas-thassio-ferreira/">revista Vício Velho</a></em></p>
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		<title>caraminholas sobre Torto Arado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[thassio]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 07 Feb 2025 12:04:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[?!]]></category>
		<category><![CDATA[outras prosas]]></category>
		<category><![CDATA[revista vício velho]]></category>
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					<description><![CDATA[um ensaio crítico-viajandão sobre o romance de Itamar Vieira Jr. e suas possibilidades]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>Caraminholas sobre <em>Torto Arado</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Demorei a ler o <em>Arado</em>. Por coincidência, peguei-o pouco depois de receber a leitura crítica do meu livro de contos (ainda em construção), que expandiu largamente a maneira como escrevo e leio. O duplo impacto — absorver um entendimento mais técnico das estruturas da prosa e vivenciar (não escolho a palavra à toa) o fenômeno que o livro está sendo (nem o gerúndio) — fecundou algumas caraminholas na minha cabeça.</p>
<p style="text-align: justify;">Personagens e cenas são os elementos mais intensos e grandiosos do romance. As figuras humanas não são apenas profundas, mas o são de um tal modo a nos tocar também profundamente. Em parte, nossa conexão com elas acontece porque Itamar nos dá o que precisávamos e queríamos, em termos de quem e como são romanceadas no atual momento histórico brasileiro. Tendemos a considerar este aspecto como extraliterário, mas a costura entre o estritamente literário e seu fora interessa menos que a obra em si: ao mesmo tempo bem urdida e necessária, simbólica, (in)conveniente no bom sentido de quebrar a ausência de um romance como este.</p>
<p style="text-align: justify;">A realização imagética é assombrosa. Desde a já antológica cena inaugural, a descrição dos movimentos interativos entre as personagens, do que <em>acontece</em>, propriamente, quase sempre alcança uma alta voltagem, sustentada na inventividade da situação e equilibrada entre o que se conta e o que imaginamos através das frestas.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é um livro perfeito (será que existe?<a href="#_ftn1" name="_ftnref1"><sup>[1]</sup></a>). Fragilidades foram apontadas <a href="https://rascunho.com.br/colunistas/perto-dos-livros/casas-definitivas/">aqui</a>, <a href="https://theintercept.com/2021/02/23/reflexao-minha-avo-torto-arado-lingua-apunhalada-itamar-vieira-junior/">ali</a> e <a href="https://baraodarale.wordpress.com/tag/itamar-vieira-junior/">acolá</a>, em geral relativas à linguagem que recheia a composição. Sem necessariamente concordar com todas as críticas, acho-as relevantes. A leitura de ficção é sempre subjetiva, e por conseguinte, a percepção de qualidades/problemas de um texto também.  Percepções variadas enriquecem a subjetividade de quem já leu ou vai ler a obra, assim como as possibilidades artísticas daquele autor e de todes nós outres.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora eu não pretenda fazer exatamente uma crítica literária, vale apontar alguns aspectos menos felizes do romance. Ao lado de passagens especialmente bonitas, circulei trechos onde sobressaíam engenho ou derrapadas narrativas, como uma narradora-personagem agindo como onisciente, afirmando o que se passa na mente de outra personagem (Bibiana sobre o prefeito na cerimônia de jarê, p. ex.); ou repetições em demasia (de variados tipos), especialmente na primeira parte. O registro de Belonísia me pareceu, por vezes, formal demais — por exemplo, usando “haver” como verbo auxiliar em tempos compostos. Para uma personagem do interior que abandonou a escola, soa deslocado.<a href="#_ftn2" name="_ftnref2">[2]</a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Torto Arado</em> é maior que suas fraquezas. Não é pouca coisa. Antes dele, enquanto reescrevia meus próprios textos em prosa (todos), reli os contos de Clarice, tentando aprender um cadinho. Alguns, como “A imitação da rosa”, são irretocáveis, outros são irregulares, e uns poucos não fariam grande falta (pronto, falei). Mas, quase sempre, a melhor escritora brasileira de todos os tempos<a href="#_ftn3" name="_ftnref3">[3]</a> consegue justo isto: um todo cuja qualidade extrapola seus pontos fracos. Inclusive nos romances, como <em>Uma Aprendizagem</em> (meu favorito) ou <em>A paixão segundo G.H.</em> (frequentemente dito sua obra-prima).</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de Clarice, zelosa de seus inalcances, ter escrito que “até cortar os defeitos pode ser perigoso — nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”, às vezes uma empreitada de aprimoramento vale a pena.</p>
<p style="text-align: justify;">Então as caraminholas foram surgindo. Vem comigo: e se no contato com uma obra literária, nós a olharmos não apenas “para trás”, como finalizada, mas tomar/tornar o publicado como um marco inicial, obra viva, passível de ser reelaborada e reelaborada pelo autor — se, quando e até onde quiser? Flexionar a fixação do texto, digamos ­— a própria expressão já indica que o apego excessivo a uma versão definitiva pode não ser tão saudável, tolhendo possibilidades e multiplicidades artísticas que talvez engrandeçam a obra e nossa relação com ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Em muitas artes, diferentes versões de um mesmo objeto convivem numa boa. Qual a melhor versão de Gil para “Aqui e agora”: a primeira, mais colorida, ou a pura voz e violão, trinta anos depois, em <em>Gil Luminoso</em>? A de Nina Simone para “House of the rising sun”: elétrica em <em>Nina sings the blues,</em> ou soturna em <em>Live at the Village Gate</em>? Van Gogh pintou cinco <em>Girassóis</em>. Munch fez quatro versões de <em>O Grito</em>: em óleo, têmpera, pastel e litografia. Na tela original, acrescentou a frase “Só poderia ter sido pintado por um louco”, depois de ter exibido o quadro, como resposta às críticas recebidas<a href="#_ftn4" name="_ftnref4">[4]</a>. Duas pinturas de Picasso, ambas intituladas <em>Três Músicos</em>, são ao mesmo tempo bem parecidas e bem diferentes. Bob Dylan, que afinal tem um Nobel de literatura na mochila, lançou em 2015 um álbum inteiro com gravações alternativas de sua música mais famosa (e favorita): “Like a Rolling Stone”, feitas na mesma sessão de estúdio da versão original. Qual a letra mais bonita de “Lígia”: a cantada por Tom e Chico ou a de João Gilberto?<a href="#_ftn5" name="_ftnref5">[5]</a></p>
<p style="text-align: justify;">Apesar do google e do auxílio informal de amigos, não encontrei muitos exemplos dessa liberdade entre escritores. Murilo Mendes revia incessantemente seus trabalhos. Lembro-me de oficinas de poesia e crítica que frequentei em 2020, nas quais a possibilidade de reelaboração dos textos (bem como reelaboração da leitura de textos alheios), no esteio do diálogo com as/os colegas, foi um baita aprendizado. Talvez este modo de encarar a obra, como algo em permanente mutação, soe menos estranho a poetas — para quem o ordinário pode parecer estranhíssimo, e o inusitado, quase natural. Outro Murilo, o Rubião, também reescrevia sem trégua seus contos. Mas é no ídolo maior do panteão antigo que encontro o caso mais interessante: Machado e seu <em>Quincas Borba</em>.<a href="#_ftn6" name="_ftnref6">[6]</a></p>
<p style="text-align: justify;">O romance foi publicado primeiro como folhetim quinzenal, ao longo de cinco anos. Depois, em livro, com significativas diferenças. As razões e o teor das mudanças são específicas (p.ex., os públicos diversos, à época, para os dois formatos), mas essa liberdade, o despudor em eviscerar a própria obra e reconstruí-la, é poderosa ferramenta a nossa disposição para ser usada em variados contextos.</p>
<p style="text-align: justify;">Enviei uma primeira versão desta coluna a alguns escritores, para trocarmos figurinhas — se proponho considerar textos diversos como em processo, como nunca-finalizados, é justo começar pelo meu. Apenas um citou o <em>Quincas</em>, brevemente, dizendo que havia mais de uma versão do romance, mas sem lembrar os detalhes da história, que eu desconhecia completamente. Desde o começo, imaginei que minha caraminhola não seria inédita, mas é tão incomum reelaborar um romance inteiro já publicado, que o exemplo do nome mais canônico de nossa literatura anda largamente esquecido.</p>
<p style="text-align: justify;">E por que não? Tendo o expediente já sido usado até por Machado, o que impede ampliarmos seus horizontes, para além da transposição de um formato (folhetim) para outro (livro), e enxergarmos — escritores (críticos) e leitores — a obra publicada como em construção, por tempo e de modos irrestritos? Desfixar (ou pelo menos debater) o pressuposto de que ao analisar um livro o consideramos pronto, concluído. Aproximar a escrita da performance (como nos exemplos musicais), apta a sua própria reelaboração. Baralhar o tempo e abraçar a possibilidade de N versões subsequentes &amp; simultâneas de um mesmo livro, sem que necessariamente esta ou aquela prevaleça sobre as outras (sensibilidades diversas podem preferir versões diferentes, com seus acertos e erros específicos).</p>
<p style="text-align: justify;">Evidentemente, Itamar faz de sua escrita o que desejar. Pode não estar interessado em revisitar o romance (textos recentes, como o da Revista Época<a href="#_ftn7" name="_ftnref7">[7]</a>, mostram sua habilidade inquieta já produzindo novidades). Ou até concordar que certos aspectos da obra poderiam melhorar, mas preferir mantê-los do exato jeito que estão.</p>
<p style="text-align: justify;">Em paralelo, qualquer escritor pode reescrever suas obras, a ideia não se prende ao <em>Arado</em>. Mas a conjunção muito especial de fatores (em torno) do livro, desde suas qualidades (pelo tamanho e pelo tipo), suas fraquezas, seus próprios abertos, seu alcance único em tempos recentes, para além da bolha literária (carregando consigo vários alcances de dentro), é o que me botou a caraminholar sobre a lindeza que seria ver essa árvore plantada na Chapada Diamantina florescer ainda mais.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta, inclusive, é outra qualidade infrequente: nos atiçar a querer mais. Há livros também melhores que a soma de seus pontos cegos, e que simplesmente compreendemos, apreciamos e seguimos em frente. <em>Torto Arado</em>, ao menos a mim, provocou outro olhar, que não se encerra no já realizado, mas se anima com o tanto que vislumbra poder frutificar a partir dele, devaneando subjuntivos: e se? Que delícia seria!</p>
<p style="text-align: justify;">Os caminhos são muitos. Como Machado, podemos pensar em uma versão revista pelo autor e pronto: aprimorada num sentido estrito (e subjetivo). Ou, a exemplo de <em>cantautores</em> e pintores, em versões múltiplas, desierarquizadas, sem preocupações com a tal fixação do texto. Ou, ainda, textos independentes que se agreguem ao existente, em mosaico. O romance, como poucos que conheço, é multiplicável tanto internamente, crescendo trechos, capítulos, alterando seu curso feito rio na cheia; quanto externamente, semeando e irrigando contos, novelas, outro romance até. Cenas de infância pela voz da caçula Domingas. Bibiana longe da terra, quem sabe na voz masculina de Servo: contraponto. O Rio Utinga narrando-se, desde antes de Donana e depois, em prosa encantada por Santa Rita Pescadeira e João Cabral.</p>
<p style="text-align: justify;">A seu favor, Itamar tem alguns trunfos: o fenômeno cultural em pleno curso, seu talento imagético e as características específicas da obra, como a força das personagens e esse caráter expansível, advindo de outro feito raro que alcançou logo na estreia como romancista: ter fundado um manancial, de onde ainda pode nos dar muito a beber, se quiser, e talvez fazer seu livro maior do que já é. Enquanto outros romances possuem um caráter mais fechado em si mesmos, sendo difícil imaginar que deles se ramifiquem procedimentos assim, a Fazenda Água Negra e seu povo têm um potencial enorme de se tornarem um universo.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto formigo meus próprios dedos reescrevendo prosas e versos como os dois Murilos (romances são imensidades para as quais ainda me falta coragem — ou competência), aceno com carinho a este baiano que chacoalhou nossa literatura e ampliou nosso público:</p>
<p style="text-align: justify;">querido, tem nas mãos seu arado de escritor, sua obra semente — cujas raízes <em>adentram</em> cada vez mais no imaginário brasileiro — e a terra fértil de leitores encantados. Eu, ao menos, adoraria comer mais do que você plantou. Como adubo para multiplicar os frutos e sabores do seu pé de literatura, valei-nos as palavras de Raduan, escolhidas na epígrafe de seu caudal: amor, trabalho, tempo.<a href="#_ftn8" name="_ftnref8">[8]</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>— publicado originalmente na <a href="https://viciovelho.com/2021/04/13/caraminholas-sobre-torto-arado-thassio-ferreira/">revista Vício Velho</a></em></p>
<p>&nbsp;</p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ftnref1" name="_ftn1">[1]</a> Nota de rodapé é chique, né? Segundo a editora/leitora crítica lá do primeiro parágrafo, há uma única obra perfeita na literatura brasileira: <em>Grande Sertão</em>. Não posso corroborar porque aproveito a nota para expor-escondendo: nunca terminei o livro. Mas é uma das metas de 2021. Afinal, segundo um escritor amigo, “a gente só fala português para ser capaz de ler o <em>Grande Sertão: Veredas</em> no original”.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ftnref2" name="_ftn2">[2]</a> O uso de estruturas cultas da língua por personagens que em tese não as dominam é ponto complexo, inclusive para não se reforçar a exclusão de pessoas e personagens desse terreno. Em artigo sobre a poesia de Claudia Rankine para o Suplemento Pernambuco (nº 179 – janeiro 2021), Stephanie Borges diz que a poeta “desperta uma série de questionamentos sobre como falar de experiências negras sem esquecer que usamos uma linguagem que nos é hostil. Nós disputamos os significados das palavras (&#8230;) mas sempre há lembretes de que não somos bem vindas”. Parte do tratamento sintático/lexical no livro pode ser visto como apossamento dessas estruturas (hostis), o que o torna bem vindo. Também pode ser lido como manifestação de características das personagens (p.ex, um desejo de “falar bonito”, em oposição a um beletrismo <em>do autor)</em>. Embora, a meu ver, certas construções apontadas não tenham sido tão bem calibradas (ou justificadas narrativamente), entre os diversos modos possíveis de se ler o/um romance, incluem-se os que depurem méritos em elementos da linguagem criticados por outros.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ftnref3" name="_ftn3">[3]</a> Outra fofoca de rodapé: amigo poeta me diz achar Clarice superestimada. Depois de contar até dez e beber um copo d’água, brinco: afora quem venera o deus antigo Machadão, fãs em Pindorama costumam se agregar em duas seitas literárias: roseanos e clariceanos (Drummond corre por fora, <em>à gauche</em>). Aqui é <em>#teamclarice</em>!</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ftnref4" name="_ftn4">[4]</a> <a href="https://www.uol.com.br/splash/noticias/2021/02/22/curadores-resolvem-misterio-por-tras-de-frase-oculta-escrita-em-o-grito.htm">A confirmação de que a frase foi escrita pelo próprio Munch</a>, e não por um terceiro, é recente.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ftnref5" name="_ftn5">[5]</a> Antes que apontem exagero na comparação de Itamar com Picasso, Clarice, etc., sublinho que a ilustração é, bem, ilustrativa. E ao traçar paralelos, no intuito de caraminholar caminhos por onde uma obra/um artista pode ir, que seja com os grandes, não com os Zé-Eu da vida, ora.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ftnref6" name="_ftn6">[6]</a> O qual também nunca li — então vocês me perdoem a cara de pau, mas acredito que as ideias apresentadas se sustentam apesar das lacunas no meu currículo.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ftnref7" name="_ftn7">[7]</a> “Debaixo d’Água”. <em>Época nº 1173 &#8211; Gritos contra o silêncio</em>, 11.01.2021</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ftnref8" name="_ftn8">[8]</a> fim/começo: como dito, a caraminhola de se encarar uma obra como em permanente processo é aplicável a qualquer texto — tanto por quem o escreve(u) quanto por quem o lê(u). Façamos isto, pois, com este pretenso ensaio, e para maior diversão, de maneira colaborativa: sintam-se à vontade.</p>
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		<title>a palavra</title>
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		<dc:creator><![CDATA[thassio]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 07 Feb 2025 11:23:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[outras prosas]]></category>
		<category><![CDATA[revista vício velho]]></category>
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					<description><![CDATA[Escrevo, escavo, invento. A palavra: áspero diamante. Quem há de adestrar suas lâminas?]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>A palavra</strong></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Escavo escavo escavo. A palavra: áspero diamante. Quem há de adestrar suas lâminas, afiadas no que (se) diz, (se) esconde, (se) compreende?</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">A palavra é — talvez primeiramente (nem os etimólogos podem afirmar a cronologia da língua; quanto aos sensos de importância, cada um que sonhe os seus) — uma tentativa de representar algo. De acordo? Pois vamos complexificar: segundo Clarice, este algo já parte de um destino: saber que vai fracassar; e portanto é também (sempre e ainda e de novo: de partida, na simultaneidade circular de um paradoxo temporal) o que sobra na volta deste inalcance. Minha memória e minhas palavras não são confiáveis (nunca confie num escritor), mas salvo engano o raciocínio da bruxa não se refere propriamente a esta unidade singular, a palavra ­— mas à linguagem como um todo, como sistema. Não importa, compactemos o pasmo clariceano: palavra, então, mais precisamente do que a representação de alguma coisa, ou tentativa de, é o que sobra do fracasso em alcançar a coisa em si. Nomear é construir com escombros.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Porém a palavra também é algo em si. Mesmo imperfeita — talvez, em parte, justo por esta sina de ser um não conseguir — ela é: inteira ela. Explico(-me), mais ou menos: cada palavra tem sua materialidade própria, gráfica e/ou (predominantemente) sonora. E como realidade autônoma — <em>troço</em> que é, que existe — tem sua física, química, seus próprios desvarios e infinitos. Veríssimo (o filho) tem um texto maravilhoso sobre a relação entre o som dos nomes e seus significados. Desde termos que ele crê soarem parecidamente com o que representam (princípio básico da onomatopeia, e se bobear, das palavras primeiras), como sílfide — espírito feminino do ar, cujo nome ele acha bem esvoaçante mesmo; até outros mais pra contraditórios, como silfo — o masculino de sílfide, que mestre LFV diz não voar, mas ter “o alcance máximo de uma cuspida, zupt, plof.”</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">O som da palavra (deixemos a grafia para outro dia, em que o autor acorde meio neoconcreto), dissociado de qualquer sentido previamente combinado. Minha sobrinha, de ano e meio, pronuncia palavras aparentemente pelo puro prazer de ser capaz. Enamorada de conseguir. Por vezes repete o que acabamos de dizer, noutras dispara sons aleatórios até parecidos com português, e que poderiam ser tomados por uma língua própria, entretanto tenho quase certeza que não querem dizer nada, e a pequena curupira <strong>sabe</strong>. Ela mesma não quer dizer nada, neste sentido da intenção de um significado inteligível. O tesão é dizer. Articular os sons, treinar as bilabiais, brincar de entrar nesse reino que desconfia ser mais interessante do que apenas chorar e sorrir. Como quem entende: em breve, esta habilidade vai-lhe ser muito útil, então melhor ir treinando. Por enquanto, brinca. Será? Isto depreendo eu, afinal. Sílabas autóctones? Onde se finca o entendimento mínimo do que se chama linguagem?</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Entre a representação e a autonomia, a palavra se faz fantasma. Mensageira de mundos, o do real que se aponta e o do real de/em si mesma, feito estrutura de hélice dupla: um DNA comunicacional. Claro que existem modos de comunicação anteriores, deixem-me com minha metáfora. A palavra que diz um algo fora de si — ou melhor, tenta, fracassa, e assim na verdade diz algo diferente, sombra e destroço do que pretendia dizer originalmente; e ao mesmo tempo diz (ou é capaz de dizer, se soubermos e quisermos escutar), o algo que ela mesma é, como se toda palavra fosse grito, onomatopeia, a transmitir não (apenas) sua significação desejada, denotativa, mas também seu existir, simplesmente. Nem toda comunicação é racional.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">E por trás do por trás, no menor intervalo entre, entranhando-se, germinando, cruzando variantes, sementes crioulas, empurrando &amp; rompendo seus limites sonoros e significantes, comendo os sons e baralhando os nomes, explodindo pra depois costurar os cacos em flores que desafiam a gravidade, a gramática, a sintaxe e nossa própria noção de flor, flores que não parecem flor sob nenhum ângulo e no entanto temos a inequívoca certeza de o serem, e nos extasiamos porque são, isso que Manoel de Barros chamou de “a loucura das palavras”: a poesia. “em poesia que é voz de poeta (e “Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina”), que é a voz de fazer / nascimentos — / o verbo tem que pegar delírio”.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Leio um poeta que desconhecia. Em dado poema, a estrofe: os negros os mexicanos / os amarelos / audimos um passado ainda vivo / um ritmo intenso / de jardins. Audimos. O que você ouve (/lê)?</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">(Escavo escavo escavo. A palavra: áspero diamante. Quem há de adestrar suas lâminas, afiadas no que diz, esconde, compreende?)</p>
<p style="text-align: justify;">
]]></content:encoded>
					
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		<title>des-modos (ensaio crítico)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[thassio]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Feb 2025 12:44:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[?!]]></category>
		<category><![CDATA[+poesia]]></category>
		<category><![CDATA[outras prosas]]></category>
		<category><![CDATA[revista vício velho]]></category>
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					<description><![CDATA[uma leitura de Íntimo Desabrigo, livro de poemas de Tarso de Melo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong><em>des-modos</em></strong></p>
<p><em> </em></p>
<p style="text-align: right;"><em>“deve-se lembrar que tudo depende da sabedoria do intérprete. Quando este se abeira respeitoso da densidade do objeto estético, reconhecendo que a sua teoria, por mais científica e rigorosa que pareça, não vai ´explicá-lo´ uma vez por todas, mas apenas tentará compreender alguns dos seus significados e dos seus processos de expressão, o risco de determinismo será esconjurado desde o primeiro olhar do analista.”</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>(Alfredo Bosi — Sobre Alguns modos de ler poesia: memórias e reflexões, in Leitura de Poesia)</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Em nota ao fim de <em>Íntimo Desabrigo</em> (Dobra Editorial e Alpharrabio Edições, 2017), Tarso de Melo informa que muitos dos poemas foram escritos “no meio do redemoinho, no lugar e na hora em que foi possível nascer. Talvez por isso o livro tenha (&#8230;) tantas manchas do tempo surrado de que é fruto e sintoma.” Mesmo após três (tumultuadíssimos) anos de sua publicação, a obra segue com força(s) impressionante(s).</p>
<p style="text-align: justify;">Desde o começo, marca-se nos poemas uma presença constante do desejo, a qual tende a se manifestar reiteradamente no âmbito da recusa, do desfazimento: o poeta quer desconstruir o (mundo) que vê, por reconhecer nele a barbárie galopante. Poucos hão de discordar que tal barbárie só venha piorando&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Atravessam o livro formulações desejantes (queria, por favor, dai-me, procuro, sonho, consiga, peço) e formulações de negação (não, não sei, esqueça, não faz sentido, nunca, e — em especial — o uso intenso do prefixo <em>des</em>: desfizesse, desprezo, desabito-me, desatenção, desmanche, Deseducação). Por vezes somam-se: quando o <em>des-alguma coisa</em> é o próprio modo de querer (“um deus que desfizesse / talvez tivesse hoje a minha fé”); por outras se opõem: quando se recusa um <em>des-alguma coisa</em> que parece desagregar e desumanizar o mundo cada vez mais (“Não suporto as fotos em que Veronica desaparece”).</p>
<p style="text-align: justify;">E agora, José? Diante das visões do horror (aliás, “foto” é outro signo recorrente no livro), como deve a poesia <em>se portar</em>? Aqui o projeto poético do livro se aprofunda e se complexifica. Para além do campo temático e de nomeação da realidade a se descosturar, temos a própria obra se fragmentando, articulando ampla gama de recursos, não como puro espelho do mundo, mas celeiro de caminhos. Diversamente a livros cuja força reside na solidez de um projeto uniforme, aqui a variabilidade predomina: alguns poemas inteiros em minúsculas, outros respeitando maiúsculas; alguns com pontuação normativa, outros sem (e até um deles <em>clariceanamente</em> findo numa vírgula, após estrofes terminadas com ponto final); poemas em prosa; poemas em tons, metros, ritmos, esquemas rímicos e tamanhos variados; as inventividades dos “poemas incidentais”; e por fim o (anti)poema que encerra o livro, rearranjando em versos uma sentença judicial, aplicando ao âmbito jurídico um tipo de procedimento já visto, por exemplo, no campo do cotidiano (Kenneth Goldsmith/Marília Garcia/Leonardo Gandolfi) e do político (Roy Frankel).</p>
<p style="text-align: justify;">Tal variedade, pelas recorrências que a permeiam, revela não se tratar o conjunto de algum tipo de <em>apanhado </em>aleatório (como enganosamente se poderia pensar em leitura apressada da citada nota ao fim do volume), mas de um projeto (bem) pensado e (bem) amarrado de multiplicidades a se tecerem “no meio do redemoinho”, buscando de algum modo apontarem como sair do furacão.</p>
<p style="text-align: justify;">Isto porque as multiplicidades desdobram significações diversas: além do mencionado espelhamento da realidade desagregada, é também um reconhecimento do poeta de não possuir resposta única à pergunta que previamente articulamos (“como deve a poesia se portar?” — “Não Sei”, responde o título da 1<sup>a</sup> parte do livro) e, ao mesmo tempo, indicação de que a melhor resposta pode ser a convivência de respostas, de possibilidades, de modos.</p>
<p style="text-align: justify;">Este último aspecto desdobra-se ainda mais, na medida em que estabelece uma relação de mãos duplas/múltiplas entre o mundo e a poesia, corporificada na linguagem. A pluralidade, acolhedora, abraça a diversidade não apenas como um <em>não-sei</em>, mas também como um <em>talvez-desses-jeitos-consigamos</em> que a poesia torne a <em>dar conta do </em>mundo, no sentido que ultrapassa o de retratar o real, na direção de incidir sobre ele. Ao desdobramento da pergunta: “como a poesia deve se portar <em>para ser também uma arma contra a barbárie</em> (em vez de apenas expô-la)?”, os recursos manejados por Melo, além de exporem os efeitos causados em si/nós pela vida<a href="#_ftn1" name="_ftnref1">[1]</a> e pela própria poesia<a href="#_ftn2" name="_ftnref2">[2]</a>, constroem efeitos que a poesia pode causar sobre a própria linguagem e sobre o mundo. Afinal, a linguagem é ferramenta de ação sobre a realidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, o autor amplia o ferramental poético disponível para si, para seus contemporâneos e para o futuro, através deste fragmentar e re-unir fragmentaridades<a href="#_ftn3" name="_ftnref3">[3]</a>, fortalecendo as potências diversas da poesia brasileira. Não através de uma experimentação <em>radical</em> da linguagem, propriamente, mas da soma de variadas experimentações, sem abrir mão de instrumentos há muito familiares, usados com grande habilidade — como a sonoridade posta em alto relevo por assonâncias, aliterações e rimas internas.</p>
<p style="text-align: justify;">Vale registrar como certas imagens e dicotomias percorrem o livro enriquecendo esses processos, pela força simbólica que carregam, como as reiterações a fogo e água, signos de transformação que podem tanto destruir como fazer renascer; ou choro e sorriso, que remetem a ciclos de perda e refortalecimento. Imagens do que fere, menções a diversos tipos de arma, evocando tanto a barbárie <em>em si</em> quanto os desagregares (do poeta, de nós, da linguagem), assim como <em>sonho</em>, também abundam.</p>
<p style="text-align: justify;">E, feito sombra por trás das páginas, uma ideia de <em>inalcance</em><a href="#_ftn4" name="_ftnref4">[4]</a> entrelaçada a tudo que referimos: inalcance em desfazer as atrocidades (“como um aviso de que 516 anos foram pouco. Eles querem mais”) ou se evadir delas, assumindo integralmente, pois, seu estar no mundo; em saber as respostas (“e não sabemos o que fazer com as mortes de amanhã”), sem nem por isso se furtar a buscá-las; em fazer da poesia instrumento de maior efetividade contra a selvageria (“Uma palavra a mais não dirá nada”), mas ainda assim empunhando suas tentativas. Em contraponto, temos outra sombra, mais cálida, entranhada nas páginas, latejando como também um caminho/resposta, dos mais importantes: o afeto<a href="#_ftn5" name="_ftnref5">[5]</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Contudo, embora reconheçamos a presença deste afeto, espalhando-se como bálsamo, o tom da obra (e sua maior força) é mais de espinhos que flores, condensando-se em alguns momentos- síntese do livro, como os poemas Shodô (“e quando rasgamos o papel não rasgamos o que as palavras já fizeram conosco | e quando sujamos o papel com o que nos suja não há mais retorno”) e Inóspitos (“é preciso / exercitar / e desadestrar / continuamente / os ouvidos / para sacar / dos versos / sua sinfonia / insólita / nada óbvia / de mil vozes / discordes”), ou o trecho de Gomapseumnida abaixo, tanto em seu desamparo explícito como em sua obstinação de seguir apesar da perplexidade, íntimo desabrigo no qual talvez nos encontremos todos que comungamos com Melo de um mínimo de sensibilidade, indignação e pasmo:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>“&#8230; e você segue</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>poeta perdido num lugar</p>
<p>em que todas suas palavras</p>
<p>não servem para nada</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>você segue, com a língua nua</p>
<p>indefesa, vulnerável</p>
<p>soterrada sua pretensão</p>
<p>de saber dizer tudo”</p>
<p>&nbsp;</p>
<hr />
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1">[1]</a> p. ex. os poemas “A foto”, “Shodô” e “Barras”.</p>
<p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2">[2]</a> p. ex. os poemas “Cadernetas”, “Canto”, “Estilhaços” e “Desajustes”.</p>
<p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3">[3]</a> p. ex. os poemas “Nota para quando eu for um sábio chinês de um século distante”, “Oração” e “Feitio de oração”.</p>
<p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4">[4]</a> p. ex. os poemas “Onde”, “Fuga” e “Convenção”.</p>
<p><a href="#_ftnref5" name="_ftn5">[5]</a> p. ex. os poemas “Companheiro”, “Maria”, “Beliche” e “Legendas para fotos que não há” e as dedicatórias singelas espalhadas pelo livro.</p>
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