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	<title>Thássio Ferreira</title>
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	<description>Escritor</description>
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	<title>Thássio Ferreira</title>
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		<title>fé cega, faca amolada</title>
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		<dc:creator><![CDATA[thassio]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Jan 2026 00:34:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[outras prosas]]></category>
		<category><![CDATA[revista vício velho]]></category>
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					<description><![CDATA[(um conto de oficina para para Ana K, Bituca e Gal)]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p class="has-text-align-justify wp-block-paragraph">Eu andava à procura de Deus — e me indagava se Ele andaria à minha procura, pra tanta gente sinais em profusão, esse fervor nas gargantas, teimosias que lembravam a infância, como diabos (ops) nos havíamos desprendido uma do Outro?</p>
<p class="has-text-align-justify wp-block-paragraph">A mãe, que Ele a tenha, sempre dizia ser no tombo do caixote que a gente valoriza o fôlego. E haja caixote ultimamente, parecia. Terapia ajudava, claro, os voos sem amarras na oficina de escrita também, mas era como se os pulmões quisessem inspirar algum fôlego maior que não vinha, sabe? Cadê?</p>
<p class="has-text-align-justify wp-block-paragraph">Quem não viveu aquele outubro nunca vai saber, da agonia em cada esquina, do estrago de quatro anos e a sombra de mais, como pode, aquela falta de Deus era diferente da minha, tão cheia do Nome nas bocas mas tão sem Ele nas mãos, acho que só fazia aguçar minha busca, por favor, e ainda guerra quase nuclear, e ainda incêndio na floresta, o trem de tudo descarrilhado e tome labuta, no bolo de areia e sal generalizado eu me agarrando em algas pra conseguir dar aula, tentar ser horizonte em vez de engrossar o caldo das seis turmas acumuladas porque a Lola não tinha dado conta, pediu licença.</p>
<p class="has-text-align-justify wp-block-paragraph">Então assim: na correria coletiva eu pendurava meus sufocos pessoais, enquanto por baixo a correnteza, clarão de sol e fundo de mar, onde Deus, porra, se ao mesmo tempo não não não não podia ser nas línguas tortas desses muitos, mas devia de sim na força pedra de muitas outras, teimando sorriso e partilhando o pão, lá na turma da sopa, no pré-vestibular noturno, na ocupação da Evaristo.</p>
<p class="has-text-align-justify wp-block-paragraph">Eu procurava. Quem procura acha, a mãe dizia também. Passei a botar reparo nele, com cuidadinho, tentando observar, já que padre, por coincidência meu aluno, um talvez, uma chance, como diz a Bíblia mesmo? O caminho, a verdade e a luz? Vai que. Mas quase sempre calado, bem (cor)retinho. Até quarta-feira.</p>
<p class="has-text-align-justify wp-block-paragraph">Atrasada pra aula, mas a tempo do encontro, que acontece sempre na hora justa, ou não acontece. Não pesquei sobre o que conversavam. Ao entrar na sala e deixar a bolsa sobre a mesa, tive meu bom dia respondido por ele com o olhar em arco, dos colegas até mim: “Não, assim, não tenho nada contra homossexuais; tenho amigos que até são.” Terminou de falar e ficou me encarando, aparentemente na espera de uma resposta. Padres devem ter um apreço especial pela hierarquia. Atenção atenção, falei, agora tu, Professora.</p>
<p class="has-text-align-justify wp-block-paragraph">Dois mil e vinte e dois. E ainda esse discurso que chega a parecer irreal de tão encaixado, as m-e-s-m-a-s palavras, lenga-lenga de apesar de, que até isso, até aquilo, nada contra, nada contra mas um nada carregado de tanto que não se diz. A bondade uma soberba. Concedo-te a graça da minha amizade, e por ela eu te salvo.</p>
<p class="has-text-align-justify wp-block-paragraph">O cansaço carburou-se chama, expandindo desde o estômago até o palato. Contra o que ele não dizia nas frestas daquele nada contra, eu haveria de dizer. “Pois não se preocupe, muitos homossexuais têm amigos que até são heteros, até padres!, e também não têm nada contra vocês.”</p>
<p class="has-text-align-justify wp-block-paragraph">Depois, vieram-me imagens. Jesus expulsando os vendilhões do templo, lavando os pés dos discípulos, defendendo Madalena. Mas isso eram histórias, as que se contam desde muito tempo pra tentarmos entender e passar adiante o que na hora foi apenas certeza no miolo da afronta, sem narrativas: Deus.</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>homenagens de amor e luta</title>
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		<dc:creator><![CDATA[thassio]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 26 Jan 2026 00:21:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[+poesia]]></category>
		<category><![CDATA[revista vício velho]]></category>
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					<description><![CDATA[pequenas grandes reverências]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>(I) Depois dos poemas para cantoras e cantores, pequenas homenagens literárias, porque tudo é canto</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="has-text-align-justify wp-block-paragraph"><strong># o menino e o poeta</strong><br />
(para João Luiz de Souza)</p>
<p class="wp-block-paragraph">o menino, com seus olhos<br />
feito perguntas em espanhol<br />
— o esquerdo uma interrogação<br />
de cabeça pra baixo, o outro<br />
uma interrogação ao mundo<br />
de cabeça pra baixo — chegou</p>
<p class="wp-block-paragraph">dentro do poema</p>
<p class="wp-block-paragraph">e indagou<br />
: onde estamos?</p>
<p class="wp-block-paragraph">em um cálculo matemático<br />
— respondi</p>
<p class="wp-block-paragraph">aprendi<br />
com um poeta<br />
(que não o era)<br />
que dentro de tudo<br />
construído pelo homem<br />
estamos sempre dentro<br />
de um cálculo matemático</p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="wp-block-paragraph">
<strong># línguas sem limites</strong><br />
<strong>                            </strong>(para Luís Turiba)</p>
<p class="wp-block-paragraph">leio em luís<br />
um verso assim:<br />
<em>língua afiada a Machado</em><br />
–– um achado, porra!<br />
e par de linhas<br />
logo após<br />
outro petardo:<br />
<em>a coisa mais Língua que existe</em><br />
–– e o poeta torto<br />
coxo, fraco<br />
não resiste:<br />
rouba os versos<br />
na cara de pau<br />
pois o tesão da poesia<br />
(pica dura na ponta da língua)<br />
não tem limites!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="wp-block-paragraph">
<strong># sobre amores</strong></p>
<p class="wp-block-paragraph">na Catalunha<br />
— segundo me sopra<br />
a revista philos —<br />
há uma poeta<br />
(talvez senhora):<br />
Gemma Gorga<br />
autora de uma<br />
pequena rosa<br />
invertida:<br />
poema que se<br />
inicia raízes<br />
caule espinhos<br />
e se entreabre em:<br />
<em>o amor me faz de lupa</em></p>
<p>venturosa, dona<br />
Gemma Gorga<br />
o amor só me faz de trouxa</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="wp-block-paragraph">
<strong># Pessoa, c’est moi</strong></p>
<p class="wp-block-paragraph">a cada pé d’água e meio<br />
encolhido, teso<br />
sob um guarda-chuva estreito<br />
sou Fernando Pessoa:<br />
lábios vincados<br />
ensimesmado<br />
sério, mui sério<br />
contra o aguaceiro</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="wp-block-paragraph">
<strong># apropriações</strong></p>
<p class="wp-block-paragraph">assim como Pierre Menard<br />
reescreveu o Quixote<br />
— na versão de Borges —<br />
sem lhe alterar<br />
vírgula ou sílaba sequer<br />
eu me aproprio<br />
e vos digo:<br />
sou mais que poeta<br />
(mais que Pessoa)<br />
o próprio poema<br />
em linha reta</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="has-text-align-justify wp-block-paragraph">(II) Depois de poemas para vozes que cantam e poemas para poetas de sempre, afetos em versos para corpos no mundo, tentativas de traduzir o que não se explica: conexões sentidas</p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="wp-block-paragraph"><strong># meninos no pomar</strong><br />
(eu &amp; gabriel)</p>
<p class="wp-block-paragraph">peguei jambo pá tu<br />
fieira de arcanos<br />
todo malícia<br />
e o tempo sumia</p>
<p class="wp-block-paragraph">desembestado<br />
(que nunca (ia))</p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="wp-block-paragraph">#<br />
<strong>poema do encantado</strong><br />
(para bruno spadoni)</p>
<p class="wp-block-paragraph">acho que você<br />
ficaria feliz<br />
em saber<br />
que tinha um enorme<br />
potencial<br />
de me causar poemas</p>
<p class="wp-block-paragraph">talvez até bons</p>
<p class="wp-block-paragraph">(inclusive ensaiei alguns<br />
assim, meio oblíquos<br />
de quina, improviso)</p>
<p class="wp-block-paragraph">antes de:<br />
desaparecer</p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="wp-block-paragraph"><strong>#</strong> <strong>para cadu</strong></p>
<p class="wp-block-paragraph">tinha ao peito<br />
— mas poderia<br />
ser à coxa<br />
à bunda<br />
às costas<br />
(ao cangote)<br />
gravado nas pupilas<br />
hipnóticas ou nele todo</p>
<p class="wp-block-paragraph">uma tatuagem<br />
em dinamarquês:</p>
<p class="wp-block-paragraph">aproveitar os pequenos<br />
momentos da vida</p>
<p class="wp-block-paragraph">(numa pronúncia meio<br />
pra dentro: escandinava<br />
dizia<br />
mas todo modo conve-<br />
nientemente direta<br />
digo):</p>
<p class="wp-block-paragraph">hygge</p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="wp-block-paragraph">
<strong># quandos</strong></p>
<p class="wp-block-paragraph">à noite<br />
à janela e ao espelho<br />
ou às nove da manhã</p>
<p class="wp-block-paragraph">quandos ninguém<br />
me olha e estou só<br />
comigo mesmo</p>
<p class="wp-block-paragraph">sinto saudades suas<br />
seu filho da puta</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="has-text-align-justify wp-block-paragraph">(III) Para quem lutou, está lutando e/ou precisa de algum alento, porque a vida coletiva é a complicação nossa multiplicada por outrem, porque pode a poesia ser lava e eletricidade, quatro anos depois e ainda antes, ontem é sempre amanhã pois tudo é hoje e a importância da vida é agora, pelas palavras que não consigo articular, inalcanço três poemas, um à beira do desastre, outro enquanto o pesadelo (lúcido) se desenrola-vá! e mais outro, a arrancar força do tutano que os dentes não têm, sorriso e mordida a desenhar o futuro. Para vocês:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="wp-block-paragraph">
# <strong>antevéspera</strong><br />
<i>(para Fernanda Nader Garavini)</i></p>
<p class="wp-block-paragraph">
antevéspera de eleição:<br />
caminho nos jardins<br />
do museu perto à casa</p>
<p class="wp-block-paragraph">ainda há jardins<br />
ainda há museus<br />
ainda tenho pernas<br />
embora casa já pareça<br />
palavra (ideia) estranha<br />
deslocada<br />
em ruínas</p>
<p class="wp-block-paragraph">uma criança<br />
atrás de uma samambaia<br />
escondida<br />
(frágil proteção):</p>
<p class="wp-block-paragraph">há medo<br />
no rosto dela<br />
(há tanto medo<br />
por esses dias)</p>
<p class="wp-block-paragraph"><em>estamos brincando</em><br />
(estamos?)<br />
<em>de pique-esconde<br />
por favor<br />
não me denuncia</em></p>
<p class="wp-block-paragraph">denunciar: palavra estranha<br />
na boca de uma criança<br />
acho que aprendeu na tv<br />
tantos escândalos:<br />
fulano furtou um boi<br />
enquanto boiadas passam</p>
<p class="wp-block-paragraph">sorrio, ocultando<br />
meu próprio medo:<br />
conta comigo<br />
não vou te denunciar</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="wp-block-paragraph">
<p><strong># corpus</strong></p>
<p class="wp-block-paragraph">eu não trouxe cartazes</p>
<p class="wp-block-paragraph">nem o megafone<br />
que comprei exato<br />
para ocasiões assim<br />
— e outras pelas quais<br />
meu sangue (de ressaca)<br />
também se encrespa —<br />
porque tampouco<br />
minha voz eu trouxe:</p>
<p class="wp-block-paragraph">anda perdida<br />
em tantos sopros<br />
de esquecimento<br />
que a carne o corpo<br />
em transe alcançam</p>
<p class="wp-block-paragraph">não trouxe meu<br />
grito portanto<br />
e nem mesmo hoje<br />
minha simpatia:<br />
não trouxe (muitos) sorrisos<br />
nem muitos abraços<br />
nem olhares convite<br />
e cumplicidade<br />
a cruzarem as pistas<br />
da avenida, me atravessarem:<br />
pedestres de pés alados</p>
<p class="wp-block-paragraph">não trouxe a fome<br />
de movimentos que cheiro<br />
sobre o asfalto, pela multidão<br />
em meu próprio corpo<br />
em outros momentos</p>
<p class="wp-block-paragraph">não trouxe muito alento<br />
nem muita esperança<br />
como noutros tempos<br />
— tem sido difícil —<br />
nem nada muito etéreo<br />
— palavras, gestos —<br />
nem qualquer objeto<br />
além da roupa do corpo</p>
<p class="wp-block-paragraph">mas trouxe precisamente<br />
porque é preciso, isso:<br />
meu corpo. o corpo:<br />
eu<br />
ocupando a rua, a urbe<br />
o tempo talvez<br />
como quem grita, gesticula<br />
empunha cartazes, megafones<br />
e olhares dizendo<br />
não</p>
<p class="wp-block-paragraph">atento<br />
forte<br />
temendo sim, porque temo<br />
<em>— we’re not that strong, my lord —</em><br />
mas em riste, existindo<br />
todo o tempo<br />
contra a morte<br />
— e seus consortes</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="wp-block-paragraph"><strong># o músculo do sorriso é o mesmo da mordida</strong></p>
<p class="wp-block-paragraph">a dentista despoetiza<br />
minha mandíbula:<br />
foi preenchimento?</p>
<p class="wp-block-paragraph">foi não</p>
<p class="wp-block-paragraph">e bem sei<br />
quanto dói<br />
essa força do<br />
músculo do sorriso</p>
<p class="wp-block-paragraph">(outro dentista já<br />
havia reparado)</p>
<p class="wp-block-paragraph">a mordida também<br />
tem o peso<br />
de mil desejos<br />
e suas angústias</p>
<p class="wp-block-paragraph">nisso penso<br />
(dentro da música)<br />
frente à luta<br />
tão rente<br />
de outubro<br />
de dois mil<br />
e vinte e dois</p>
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			</item>
		<item>
		<title>poemas para vozes que (não) cantam (mais)</title>
		<link>https://thassioferreira.com/poemas-para-vozes-que-nao-cantam-mais/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[thassio]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 24 Aug 2025 19:20:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[+poesia]]></category>
		<category><![CDATA[revista vício velho]]></category>
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					<description><![CDATA[pequenas homenagens a grandes gargantas]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong># cássia elis </strong></p>
<p>então é isto</p>
<p>que você tem</p>
<p>a dizer no dia</p>
<p>da morte dela</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>ainda que tenha</p>
<p>sido isto</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>(enquanto a outra</p>
<p>ela diz: era melhor</p>
<p>que todos nós)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>vocês também veem</p>
<p>as parecências?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>(cocaína, vociferam</p>
<p>revistas — hienas!</p>
<p>mas nos interessam</p>
<p>a voz</p>
<p>e os dentes)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong># amy </strong></p>
<p>a cantora no palco</p>
<p>a postos (em punho)</p>
<p>a banda</p>
<p>o público</p>
<p>o tempo</p>
<p>e dionísio</p>
<p>aguardam em vão</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>a cantora</p>
<p>­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­  louca</p>
<p>gira</p>
<p>­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­  louca</p>
<p>sem</p>
<p>­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­  lógica</p>
<p>nenhuma</p>
<p>­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­  feito não-bailarina</p>
<p>e não</p>
<p>­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­­ ­canta</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong># estrofe a cazuza </strong></p>
<p>ah, pai cazuza!</p>
<p>todos os meus prazeres</p>
<p>são risco de vida</p>
<p>não é toda vida sempre</p>
<p>um risco a si mesma?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong># i wish </strong></p>
<p>doctress nina simone</p>
<p>cantando dindi like a river</p>
<p>that can(’t) find the sea</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>drops de prosa</title>
		<link>https://thassioferreira.com/drops-de-prosa/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[thassio]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 24 Aug 2025 18:39:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[outras prosas]]></category>
		<category><![CDATA[revista vício velho]]></category>
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					<description><![CDATA[#

Num dia verde, porque verde é a cor da cura, acordou e voltou a ter vontade de viver. Foi feliz, por um tempo. Movia-se, como um gato. Depois entristeceu de novo.
...]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>#</strong></p>
<p>Num dia verde, porque verde é a cor da cura, acordou e voltou a ter vontade de viver. Foi feliz, por um tempo. Movia-se, como um gato. Depois entristeceu de novo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong># do cacto</strong></p>
<p>— Olha, mana.</p>
<p>— Tá minando…</p>
<p>— Será se é água mesmo?</p>
<p>Primeiro o dedo na pocinha, quase encabulada ainda de escorrer pouco a pouco sobre o concreto. Na língua a surpresa, e desce o dedo até a gota e engordando pendente do cacto. Ele sente o mesmo arrepio gostoso que a irmã, antes que ela diga.</p>
<p>— Tem gosto de… mel.</p>
<p>— Deixa eu provar.</p>
<p>Raspa o dedo no áspero. Lambe.</p>
<p>— A gente conta pra mãe?</p>
<p>— Mas ela não vai sentir o gosto…</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>#</strong></p>
<p>Perdoar deus por nos ter existido: esta doência infinda delícia, como um clarão no mais fundo escuro onde nem mais palavras como clarão, escuro ou qualquer outra têm sentido que dirá sentimento.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong># frases de um fim de semana</strong></p>
<p>“enquanto eles tavam no Togo, a menina foi ao banheiro e nunca mais voltou”</p>
<p>“esfregação genital é opcional”</p>
<p>“eu lembro de um aniversário do Félix&#8230; eu nem tava nesse aniversário”</p>
<p>“tá mais tirulim que pan”</p>
<p>“é a regra do quintal, mana, não a tua. tem que respeitar a regra do lugar.”</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>#</strong></p>
<p>Não é que eu buscasse uma transcendência qualquer nos corpos em que antes buscava apenas sofreguidão. Mas algo sobre eles, além de si próprios, agora me interessava. Melhor: instigava. Inquiria sobre o além daqueles corpos.</p>
<p>E o carnaval mal havia começado.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>#</strong></p>
<p>— Nao é acarajé, é bolinho de Jesus.</p>
<p>— É o quê?</p>
<p>— Bolinho de Jesus.</p>
<p>— Ah, vai se foder — eu não disse, porque afinal é preciso ser didático e preferir a comunicação não-violenta, mas antes que eu não dissesse, pude quase ver-me, claroaguda, a dizer. Contive-me, a custo e calma, e o que disse então, com certa dose tentativamente calibrada de irritação na voz, porque afinal também não sou santa, e além do mais, um quê de tome-tenência me facilitaria o trabalho, o que eu disse então foi:</p>
<p>— Olha, mona, eu respeito a tua religião e tu respeita a minha, ora veja!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>#</strong></p>
<p>De noite tinha os sonhos mais prosaicos. Nunca voava, nem comia estrelas (de cinema ou nêutrons), não visitava Istambul entendendo-se com todos à sua volta numa língua inexistente. Facas do dia a dia, diálogos sem tesão, lampejos, lacunas, as plantas do quintal, com seus nomes mesmo, era dos restos mais baços de quando acordado a carne dos seus sonhos. Triste</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Stella e Carolina</title>
		<link>https://thassioferreira.com/stella-e-carolina/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[thassio]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 23 Jul 2025 00:58:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[+poesia]]></category>
		<category><![CDATA[outras prosas]]></category>
		<category><![CDATA[revista vício velho]]></category>
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					<description><![CDATA[desdobrando pensamentos a partir de Stella do Patrocínio e Carolina Maria de Jesus]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>Stella e Carolina</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Talvez que desdobrar pensamentos e(m) linguagens seja um jeito de viver.</p>
<p style="text-align: justify;">Ando ouvindo Stella do Patrocínio. Literalmente. Internada por anos em um hospício no Rio de Janeiro, este ano entraram em domínio público os áudios com seus <em>falatórios</em>, como ela mesma designava os momentos nos quais se desabalava em palavras, pura poética. Desses áudios a poeta e filósofa Viviane Mosé derivou um livro, arranjando em versos a voz de Stella.</p>
<p style="text-align: justify;">Com quais tradições você se identifica? A tradição do pensamento que desemboca na maioria de nós, brasileiros letrados, tem um ranço hoje muito questionado, mas que assim como tantos ranços do Brasil e do mundo, permanece, entranhado, difícil de metabolizarmos em outra coisa: o de achar que nossos instrumentos de convívio evoluem sempre, seta apontada para algo melhor, novidades superando o passado. A linguagem escrita como superior à oral. Balela, besteira, blábláblá, que outras tradições acusam e refutam.</p>
<p style="text-align: justify;">A poesia, como expressão, torção e construção da linguagem, é anterior mesmo à língua falada, não me acanho em afirmar. Pinturas rupestres, dança, dengos, sabe-se lá que formas poéticas queimaram e se perderam no tempo. Depois, as palavras. Depois, a grafia. Hoje, simultaneidades, convivência. A poesia escrita, versos visíveis, a mancha gráfica, apenas maneiras diferentes de poetizar. Uma(s) outra(s), dentre muitas. Alteridade, não superioridade.</p>
<p style="text-align: justify;">Outros ranços: a convicção de que mover-se ajustadamente dentro dos parâmetros sociais em muito absurdos, mas padronizados, seria mais saudável, mais corretos até, do que outros modos de movimento; a lógica do lucro; a primazia do produtivismo.</p>
<p style="text-align: justify;">No áudio passado-e-presente-ao-mesmo-tempo, (a psicóloga?) pergunta a Stella <em>Você não tem vontade de produzir alguma coisa, de ganhar dinheiro?</em> <em>Eu tenho vontade de ganhar dinheiro. Mas não tenho vontade de produzir</em>. Ganhar dinheiro pra saciar a fome, sim, afirma mais à frente. Mas produzir? Pra quê? Por que esta é uma preocupação tão explícita de quem, em nome da sociedade &amp; da sanidade, a interroga? Deixa Stella <em>pastar à vontade, que nem um camelo</em> como ela quer.</p>
<p style="text-align: justify;">Em outro trecho, indagada, Stella contra-indaga <em>“Me casei” como? “Casada” como? “Morou junto com homem” como? </em>Como a perguntar o que queremos dizer quando usamos certas convenções linguísticas corriqueiras. O corriqueiro, afinal, não é (um)a verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">Escolho trechos “não tão poéticos” (não?) porque assim como a poesia falada é tanto quanto a escrita, a que não se pretende pode ser tanto quanto a intencional. Tanto tanta tão: poesia filosofia reflexão lindeza coisa sem nome que vale a pena. Um reino.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>Deus tá no céu em toda parte</em>. Existe ali uma vírgula? Corto – edito – avanço. <em>Não tenho voz pra cantar mais</em>. Corto, avanço: edito? Stella parece refratária. Diz que lhe comem com os olhos. <em>Quando eu tenho muita vontade de falar não encontro ninguém, quando não tenho voz vocês aparecem</em>. <em>Eu não queria me formar, não queria nascer, não queria tomar forma humana, carne humana e matéria humana</em>. Esquiva para exibir, diz não entregando, sinuosa, um sim, que todavia, ainda, não é. O em baixo da língua(gem).</p>
<p style="text-align: justify;"><em> </em></p>
<p style="text-align: justify;">Carolina Maria de Jesus é o em (riste) cima da língua. Por sobre os monturos, por sobre si própria, seta certeira. <em>Quarto de despejo</em>, além de atual, impactante e interessantíssimo, integra a categoria fictícia dos livros necessários — na real não existem obras imprescindíveis, mas umas são menos incontornáveis que outras.</p>
<p style="text-align: justify;">Um dos pontos de partida possíveis para adentrar sua complexidade é justamente a elaboração narrativa e estilística que faz da realidade. Se Stella, até onde sabemos, nunca escreveu um poema sequer, elaborando magipoeticamente a realidade que sentia de forma exclusivamente oral, para Carolina a literatura, com todos os códigos de sua tradição, é uma fome, tão premente e presente quanto a do corpo. Não quer ser, e não é, denúncia pura. Absolutamente tudo o que constrói o conceito convencionado de literatura &amp; escritora, e das boas, está nela e seu <em>Quarto</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Entremeando a força brutal do que se conta e a latência do que se cala, pulsam ficções subjetivas — algumas, desejantes, mais evidentes; outras que apenas podemos imaginar. Costurando o todo, suas escolhas e limites (conscientes ou inconscientes, não importa), do quê e como selecionar, justapor, destrinchar, desdobrar, luzir até.</p>
<p style="text-align: justify;">Tão fascinante quanto a própria construção da linguagem que pratica é a construção simbólica de autoimagem que a escrita dela, nela(-Carolina) e em si(-na escrita) perfaz e evidencia — em depoimento posterior ao livro, afirma: <em>O que eu sempre invejei nos livros foi o nome do autor. E li o meu nome na capa do livro. Fiquei emocionada</em>. O livro tangível, o nome legível. Gullar disse que a poesia existe porque a vida não basta. É muito particularmente tocante como Carolina produz sua identidade e subjetividade, o sentido de sua vida, a partir da escrita.</p>
<p style="text-align: justify;">A par das faces opostas sobre a relação de cada uma com a literatura/com a escrita, há paralelos. Dentre cerca de vinte cadernos, foi um jornalista quem pinçou os trechos que compõem o <em>Quarto</em>. Atentar para essa dinâmica — classista, sexista e racista, desde os 50/60, quando a obra foi gestada, até os 90, quando o jornalista-editor escreveu o prefácio à minha edição do livro — não diminui a obra nem a autoralidade visceral de Carolina, mas pode desdobrar nossas leituras presentes, como ouvir a voz de Stella desdobra suas falas.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez que desdobrar as simultaneidades e(m) espelhos do tempo também seja um outro jeito de viver.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><em>(publicado originalmente na <a href="https://viciovelho.com/2022/05/15/stella-e-carolina/">Vício Velho</a> em um certo maio, mês da luta antimanicomial e da abolição formal da escravidão no Brasil. os &#8220;falatórios&#8221; de Stella e respectivas transcrições podem ser acessados no site do <a href="https://museubispodorosario.com/stella-do-patrocinio-memorias/">Museu Bispo do Rosário</a>)</em></p>
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		<title>As formas fugazes que talvez tivéssemos</title>
		<link>https://thassioferreira.com/asformasfugazes/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[thassio]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Jul 2025 00:47:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[+poesia]]></category>
		<category><![CDATA[outras prosas]]></category>
		<category><![CDATA[revista vício velho]]></category>
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					<description><![CDATA[pequena meditação, um tanto delirante, sobre os livros "A forma fugaz das mãos" (Fábio Pessanha) e "Todos os nomes que talvez tivéssemos" (Guilherme Gontijo Flores)]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>As formas fugazes que talvez tivéssemos</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Escrever <em>sobre</em> é diferente de escrever. Ainda assim, ainda o é. À primeira escolha (a mesma, de certa forma): sobre <em>o quê</em>, hesito — a hesitância é uma velha amiga. Não entre o que propriamente me atravessa, mas entre os que me fecundam. Sobre: o que em mim se multiplica. Quando: quero. Como: Consigo. Então, vou-nos.</p>
<p style="text-align: justify;">Sophya de Mello Breyner Andresen e João Cabral de Melo Neto conheceram-se em Sevilha, salvo engano. Tinham visões diametralmente opostas sobre a poesia e as maneiras de escrevê-la. A dama do mar dizia que escutava poemas quando criança, antes de saber que alguém os havia escrito, e portanto a poesia se fizera nela como entidade, quase. Os poemas baixavam em si, perto de prontos, soprados, psicografados: mistérios de palavras. João, construtor de securas, não acreditava em inspiração e trabalhava meticulosamente, cada dia, no que estivesse a criar, desenhando para os olhos quase-equações da língua, correlações: engenharias. Disciplina, disciplina, disciplina: catar feijão.</p>
<p style="text-align: justify;">Sophia e João tornaram-se bons amigos e admiradores mútuos. Dedicaram-se poemas, respeitavam o que nascia do processo particular alheio, sabiam: em arte, é difícil parir verdades absolutas.</p>
<p style="text-align: justify;">Releio, porque desejo escrever algo <em>sobre</em>, <strong>A forma fugaz das mãos</strong>, de Fábio Pessanha. Mistérios que não compreendo, poemas que meu pensamento estranha, paisagens sonoras, passagens de uma plasticidade retorcida em origami. <em>dizer um poema / como conceber / um ato incendiário</em>. Algo de mantra nesses versos, não só pelo sentido, mas repare: um <em>m</em> que se insinua, atravessado em meio em dois <em>oms</em>, espraiando-se em <em>as</em> abertos, findando no sopro de um (pav)<em>io</em>. <em>escrever como / se o céu não existisse e cada / palavra fosse um golpe na sintaxe / (&#8230;) até que o orgasmo / rompesse com o enigma / dos meus gemidos</em>. <em>transito pelo labirinto</em>, Fabio diz, eu leio, ouço, aposso-me: ele não é o único. Há quanto tempo perco-me mais nas texturas de chapisco &amp; hera dos labirintos do que no manejo de faca &amp; formão tentando aclará-los? Deito-me — para depois: um novo dia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>(Interlúdio fora de ordem:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Um teixugo</p>
<p>sentou-se num sabugo</p>
<p>no meio do refugo</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Por que</p>
<p>afinal?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O lunático</p>
<p>segredou-me</p>
<p>estático:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O re-</p>
<p>finado animal</p>
<p>acima</p>
<p>agiu por amor à rima</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O teixugo estético, de Christian Morgenstein,</p>
<p>por Haroldo de Campos</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Quem quiser entenda: a linguagem é bem mais que transmitir discursos informacionais &amp; racionais. Ou como nos canta Wilberth Salgueiro: por associação acústica, o gesto poético pode se sobrepor a sentidos mais lógicos ou decodificáveis. Salgueiro continua, sobre concepções de poesia metafísica, irracionalista, transcendental, <em>versus</em> outras cerebrais, cartesianas — mas disso eu já falei. O que acrescento: a poesia que te encanta deve ser deleite (ainda que o deleite difícil de um desafio). Somos tantas e tantos, não creia em quem lhe diga que este poeta ou aquele livro são imprescindíveis. Ninguém <em>tem que</em> ler nada. Fim do interlúdio.)</p>
<p style="text-align: justify;">Dia seguinte, <strong>Todos os nomes que talvez tivéssemos</strong> começa a me desconcertar. Tijolo. Tetralogia. Quatro livros de Guilherme Gontijo Flores reunidos em um. Sob o signo da diversidade, cerca de trezentas e trinta e três páginas ­— inexato, a mim vale mais o valor al(i)terado: dança délfica desnovelando o cânone &amp; o contemporâneo, fragmentando fios em grãos, para depois-ao-mesmo-tempo os refundir, transfundir, (confundir) (a quente &amp; a frio) em novos cacos de novos espelhos.</p>
<p style="text-align: justify;">A formação do vidro é uma questão cinética, por depender estritamente do tempo, calibrado para que seus átomos não se (re)ordenem muito. Sólidos cristalinos apresentam um padrão de simetria na composição molecular. O vidro, modo diverso, é de estrutura desordenada. Que eu me organizando posso desorganizar Que eu desorganizando posso me organizar, cantou Chico (o Science, não o outro).</p>
<p style="text-align: justify;"><em>poesia é comer o cu do silêncio</em>, escreve Flores, <em>pós-moderno de plantão</em>, <em>ofertando — uma / forma de / benção — a promessa impossível do sentido</em>. <em>a ametista desabrocha / seu veio / feito falha / incrustada na druxa /esdrúxula / no cerne do fracasso do granito</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Por muito tempo, a poesia se preocupou mais em organizar os sólidos das palavras, construir cristalinos (ainda que deslocando imagens e sentidos). Depois, despreocupou-se, transparecendo em vidros remix de tempos &amp; conjugações, libertando o aprendizados das escolas. Nada contra calcular (salve, João!), nada contra incorporar (a benção, Sophia!), e mesmo toda e qualquer desestruturação tem um tanto de ordenamento intencional e um tanto de chama nova, inapreensível. Mas a mim o jogo fica mais divertido quanto mais brincante, entrelaçando formas fugazes às mãos, aliterando todos os nomes que talvez (ou não) tivéssemos, lambendo as palavras e depois se alucinando — feito fossem barros, (de) manoel.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Poesia é voar fora da asa.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>E para que serve a poesia? Para nada. Porque a vida não basta.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>— publicado originalmente na <a href="https://viciovelho.com/2022/02/22/as-formas-fugazes-que-talvez-tivessemos/">revista Vício Velho</a></em></p>
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		<title>Nunca estivemos no Kansas / poemas para onde nunca estivemos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[thassio]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 08 Feb 2025 03:21:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[+poesia]]></category>
		<category><![CDATA[outras prosas]]></category>
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					<description><![CDATA[No verão em que lancei meu livro de contos, "Nunca estivemos no Kansas", a prosa-título e alguns poemas-diálogo, tudo junto e misturado]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>Nunca estivemos no Kansas</strong></p>
<p style="text-align: right;"><em>para nós</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">— Deixa os caras</p>
<p style="text-align: justify;">ele diz, e não consigo pontuar sua fala, entre a ordem nítida e talvez algum medo. Levantado contra o sol, na praia que de muitos modos fermenta como intestinos, é difícil distinguir seus traços sobre o corpo largo, mesmo a poucos metros. Estamos sempre tão perto no verão desta cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Antes: eu já notara o grupo de garotos, bebendo e falando alto, a zoeira preenchendo os abertos feito o calor, sem clemência. Pareciam querer desafiar a própria tarde, quixotes carregados de ímpetos nem tão cavalheirescos. Fermentavam também. A vários momentos, um bordão revinha às bocas, entre gestos inquietos: que eram filhos do sujeito. O presidente, aquele. Altos brados e risadas: Filhos dele, filhos do sujeito!</p>
<p style="text-align: justify;">Eu oscilava entre mim mesmo e o redor. Como sempre, como tantos, talvez.</p>
<p style="text-align: justify;">A dança caótica das moléculas do universo: perto, então, da molecada, chegam dois homens, com uma criança pequena, guarda-sol e o acaso mesclado à areia dos tornozelos. A zoeira se insinua, desenhando diante de si, daquelas moléculas de carne, ossos, músculos e pele, um alvo mais palpável que os átomos gasosos do céu azul. Provocam, tom acima a tom acima. Os homens a princípio não parecem perceber, entretidos consigo mesmos, a criança e sua língua estrangeira. A molecada insiste, chama-os assobiando, e quando olham: um requebra-se em trejeitos, emendando com socos batidos contra a palma da mão, imitações de chutes, rasteiras, antes de encerrar sua performance rumo aos tapinhas e risos dos companheiros, repetindo aos brados: Filho dele!</p>
<p style="text-align: justify;">No mais das vezes, hostilidade não requer tradução. Os homens falam entre si, mais baixo do que faziam antes, e olham em volta: como quem busca. Tudo tão perto e tão veloz nesses verões. Feito aumentassem a aposta, alguns dos garotos se juntam em pé ao mímico da vez, já sem nenhum trejeito: saem da própria roda, encarando agora mais de perto aqueles desenhados em alvo pela fermentação dos ódios, dos desprezos, do escuro que em alguns de nós subsiste ao mais potente sol. Os queixos se erguem, sustentando rostos afiados em desafio.</p>
<p style="text-align: justify;">Um deles posta-se resoluto frente ao grupo. Outros dois avançam, passos pequenos, meneando as cabeças pra cima e pra baixo. Talvez os homens, certamente a criança, não entendam a frase com que todos nesta cidade legendariam o gesto: <em>qual foi?</em>, mas o gesto em si dispensa legendas em qualquer língua. Então:</p>
<p style="text-align: justify;">— Deixa os caras</p>
<p style="text-align: justify;">ele diz, por sobre o zumbido da praia fermentando. Em outro con-texto eu provavelmente tivesse desviado o pensamento, à deriva (: preciso fazer feira, ou: que horas são?, ou: e aquela vez em que Seu esperma tem uma cor estranha / É o remédio pra vermes, ou: etc. etc.), mas já não oscilo. Atento. É preciso, às vezes. Ele também, eu sei, gostaria de apenas submergir e abafar as vozes dessa tanta gente espalhada sobre a areia, a terra e o asfalto do mundo. Mas é preciso estar atento. Forte.</p>
<p style="text-align: justify;">(Lembro lutas que não vivi: a mesma praia, anos antes, valentões espancando um rapaz aos urros de Viadinho é daqui pra lá, e ninguém se levantou pra defender o quase menino, não deixar aquela linha urrada a vozes de espuma rábica cicatrizar-se; Stonewall, outra latitude, tempo ainda mais pretérito, agredidas em levante contra não só braços e pernas e cuspe mas cassetetes e armas e fardas e a força que demos às polícias de toda parte desde antes de nascermos, como um pacto que não fizemos, mas espera-se que obedeçamos. É preciso lembrar. Atentos.)</p>
<p style="text-align: justify;">A porra do tempo alongado, esticado feito fronteira: o que há de haver daqui, deste momento agora, pra lá, pro depois? A espera em si mesma como observando do alto: se a linha do tempo vai explodir ou afrouxar, (re)acomodando-se nas areias quentes. O instante (mais que os homens) feito lâmina a decidir se arremete contra as carnes ou retorna à bainha. O tempo fermentando.</p>
<p style="text-align: justify;">E entorna. A porrada come: levanto-me e corro. Não pra longe, mas pro dentro da confusão. Nunca estivemos no Kansas, Dorothy.</p>
<hr />
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>#</strong><br />
primeiro, um saltimbanco<br />
de uma trupe cor de terra<br />
à beira dessa estrada que<br />
não cessamos atravessar<br />
cada dia</p>
<p>depois mais concreto<br />
embora (ainda) esférico<br />
e o cheiro do sol</p>
<p>en-tão</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>#</strong><br />
a cidade sendo lida<br />
pelos pixos em quinas<br />
e planos: cataclisma<br />
d´estéticas cruzescritas</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>#</strong><br />
primeiro pela rodovia<br />
radares, painéis de propaganda<br />
placas apontando<br />
grandes cidades, possíveis desrumos<br />
para onde o horizonte<br />
para ontem<br />
por que amamos tanto<br />
quanto mais o corpo<br />
de asfalto suporta<br />
tanto peso sem<br />
rachar nem chorar<br />
ou mesmo amassar</p>
<p>até que se dobra assim<br />
com carinho à esquerdinha<br />
sapatinho e a estradinha<br />
afunila-se<br />
mas ainda mão dupla, todavia<br />
vai que vem, cumprimenta-se<br />
eia aioba bom dia farol que pisca</p>
<p>uma primeira ponte<br />
passagem para um só<br />
veículo: e naonde outros?<br />
barulhinho de rio<br />
o asfalto rachadinho<br />
empoeirado, se fingindo<br />
de terra, bordado de mato<br />
se embrenhando, querendo<br />
um cadinho desfolhar</p>
<p>segunda ponte guardada<br />
por cancela de sereno<br />
o caminho estreitando<br />
mais na verdade menos<br />
menos menos<br />
verde escuro anoitunelcendo</p>
<p>até que (nunca) chegamos</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>ex-fumo-me</title>
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		<dc:creator><![CDATA[thassio]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 08 Feb 2025 03:01:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[+poesia]]></category>
		<category><![CDATA[revista vício velho]]></category>
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					<description><![CDATA[poemas para não fumar]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong># como parar de fumar</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>acordar &amp;</p>
<p>pés no tapete</p>
<p>mijo no vaso</p>
<p>dissolvendo sonhos</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>preparar o café &amp;</p>
<p>bebê-lo apertando bem</p>
<p>a xícara, condensando</p>
<p>a atenção no calor das mãos</p>
<p>em vez da tentação da língua</p>
<p>dizer mais tarde, agora não</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>lavar a louça &amp;</p>
<p>emendar gestos</p>
<p>como aprender a andar</p>
<p>um vacilo depois do outro</p>
<p>em frente, sem cara no chão</p>
<p>até cruzar a manhã</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>preparar o almoço &amp;</p>
<p>cheirar a comida cupidamente</p>
<p>fingindo aromaterapias</p>
<p>em esperanto &amp; depois</p>
<p>mastigar devagar</p>
<p>pois é preciso reaprender</p>
<p>o ritmo das coisas &amp;</p>
<p>do vazio</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>novamente lavar a louça &amp;</p>
<p>trabalhar ou</p>
<p>ir à praia ou</p>
<p>(se no sítio) olhar</p>
<p>as mangas que esperaram</p>
<p>para cair do pé</p>
<p>ligar para a mãe ou</p>
<p>ligar para a vó ou</p>
<p>para o amigo brigado &amp;</p>
<p>dizer vamos conversar</p>
<p>sem pressa, sem ânsia</p>
<p>sem saber do tempo</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>mastigar o tempo</p>
<p>devagar ou</p>
<p>ludibriá-lo emendando</p>
<p>: mais tarde, agora não</p>
<p>agora vou fazer outra coisa</p>
<p>depois</p>
<p>atrás do outro &amp;</p>
<p>um atrás do outro</p>
<p>agora tomar banho &amp;</p>
<p>agora cortar as unhas &amp;</p>
<p>agora hidratar os cotovelos &amp;</p>
<p>agora ler um poema ou</p>
<p>agora escrever um poema ou</p>
<p>agora pensar poemas ou</p>
<p>agora ver um filme &amp;</p>
<p>(beber água beber água beber água)</p>
<p>agora fazer pipoca ou</p>
<p>agora tirar o lixo &amp;</p>
<p>agora escovar os dentes ou</p>
<p>agora recolher a roupa &amp;</p>
<p>agora sentir tesão ou</p>
<p>agora lembrar de quando &amp;</p>
<p>quase chorar um pouco mas</p>
<p>sacudir a cabeça brrrrr &amp;</p>
<p>deitar resistindo à vontade</p>
<p>absurda daquele unzinho</p>
<p>ao fim do dia (&amp;) dormir</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&amp; (não) é simples (?)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong># como parar de fumar 2</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>como num dicionário analógico</p>
<p>coisas para ocupar o tempo</p>
<p>retomado aos cigarros diários</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>dançar</p>
<p>temperar de antemão a comida</p>
<p>comer mais devagar</p>
<p>fumando os sabores</p>
<p>trincar os dedos nas palmas</p>
<p>feito dentes</p>
<p>resistir</p>
<p>tentar fazer-me cócegas</p>
<p>pra me acostumar</p>
<p>aos inalcances do susto</p>
<p>dançar mais</p>
<p>contorcer-me até quase chorar</p>
<p>olhar o teto</p>
<p>olhar o avesso das pálpebras</p>
<p>pensar em fazer uma lista</p>
<p>de porquês não fumar</p>
<p>esquecer (porque o telefone tocou)</p>
<p>brincar com o cachorro</p>
<p>lembrar de como ele</p>
<p>dizia ter cara de</p>
<p>cachorro salsicha</p>
<p>com mais carinho</p>
<p>que raiva, tanto tempo</p>
<p>tragar(-me) (n)o tempo</p>
<p>pensar como</p>
<p>um personagem de Clarice</p>
<p>: eu estou sendo</p>
<p>estranhar a vida</p>
<p>sonhar com o fim</p>
<p>do capitalismo</p>
<p>respirar fundo</p>
<p>(coragem, coração, se joga</p>
<p>como corações se jogam — lembrei)</p>
<p>fazer a lista de porquês</p>
<p>mordislamber a língua</p>
<p>criassentindo deleites</p>
<p>beber água e de novo e</p>
<p>bem, vocês já entenderam</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>#</strong></p>
<p>não fumar é simples apenas</p>
<p>não acender cigarros</p>
<p>como quem não rói as unhas</p>
<p>não tragar como quem</p>
<p>não masca os cabelos</p>
<p>não queimar as pontas</p>
<p>dos dedos como quem não</p>
<p>queima as pontas dos dedos</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>e quando a vontade uma vastidão</p>
<p>carcomendo o ventre pelo transdentro</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>-fa-zer-ou-tra-coi-sa-</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>(um poema, por exemplo)</p>
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		<title>Katrina</title>
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		<dc:creator><![CDATA[thassio]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 08 Feb 2025 01:56:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[outras prosas]]></category>
		<category><![CDATA[revista vício velho]]></category>
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					<description><![CDATA[Depois das oficinas de poesia, um conto oficineiro (para Anita Deak)]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>Katrina</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Nem bem abri a porta, Katrina se espaventou pela cozinha, chacoalhando as bijuterias, os cabelos anelados, os saltos no piso de cerâmica, suas vogais alongadas ­­— Bom diiiiia, maniiiiinha, como você estááá?</p>
<p style="text-align: justify;">Oito e sete, piscou o relógio digital na parede acima da geladeira. Oito e sete, porra. Fechei a porta com cuidado, evitando mais alarde.</p>
<p style="text-align: justify;">— Estou bem. O que você quer?</p>
<p style="text-align: justify;">— Nooossa, alguém acordamos curta e grossa hoje, hein?! — retorquiu num sorriso de esguelha, um dos cantos da boca mais erguido que o outro. Desde pequena ela sempre foi como ambidestra de rosto: piscar só de um olho, tanto o esquerdo quanto o direito, erguer uma sobrancelha de cada vez, e esses sorrisos assimétricos: pra um lado, pro outro. Às vezes eu tentava imitar no espelho, mas mal e mal conseguia dominar o lado esquerdo.</p>
<p style="text-align: justify;">Desfez o riso passando a língua sobre os lábios enquanto me radiografava de alto a baixo, no meu legging de academia e sutiã. Daí esticou um sorrir diferente, boca fechada, aproximando um cadinho quase nada em diagonal o rosto do ombro direito — a pele bronzeada tão bonita sob a alça do vestido.</p>
<p style="text-align: justify;">— Cadê meu afilhado?</p>
<p style="text-align: justify;">— Já levei na escola. Tô me arrumando pra ir na academia antes do trabalho e&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">— E o Ronaldo?</p>
<p style="text-align: justify;">— Dormindo. Ficou até tarde preparando um relatório, só vai pra empresa depois do almoço.</p>
<p style="text-align: justify;">— Ah. — Pôs a bolsa em cima da mesa, chacoalhando, será que eu precisaria dar um tapa nela pra fazer menos barulho, meu Deus? — E você não vai me oferecer um café, maninha?</p>
<p style="text-align: justify;">— Senta. E fala mais baixo, Katrina.</p>
<p style="text-align: justify;">— Você sabe que eu sou quase fisiologicamente incapaz disso. Até na cama, viu? Lembra do Bruno? Ele adorava transar nuns lugares meio cheios de gente, escondido, banheiro de festa, estacionamento de shopping, eu tinha que morder o braço dele pra não chamar muita atenção.</p>
<p style="text-align: justify;">Oito horas da manhã. Sexo em shopping, e eu nem tinha servido o café ainda. Ronaldo dizia, desde Nova Orleans, que ela fazia jus ao nome. Cada vez mais, ultimamente. O Bruno era um homão, por onde andaria? Num relampeio imaginei a cena: ele de terno, sentado no carro, e Katrina por cima, os cabelos espalhados sobre o bronzeado, nesse mesmo vestido de alcinha. Antes que pudesse afugentar a imagem, o rosto dele era o de Ronaldo.</p>
<p style="text-align: justify;">— E o Paulinho?</p>
<p style="text-align: justify;">Ouvi as unhas bem feitas de uma mão batendo nas da outra, aquele tlac tlac sempre me deixava alerta. Virei-me, ela não sorria mais.</p>
<p style="text-align: justify;">— &#8230; Homem mais novo é foda, Bia. Você que tá bem, com o Ronaldo e o João. O Paulinho me deu um pé na bunda. Ontem. Disse que eu sou demais pra ele. Engraçada essa expressão, né? A gente usa tanto como algo bom, fulano é demais, esse namoro é demais, você tá feliz? demais. Aí vem um e diz que a gente é demais pra ele, sobra, não quer, não aguenta. O babaca não conseguiu nem explicar <em>o que</em> era demais, sabe? Qual parte. Se era assim, minha personalidade, como um todo, você me conhece, ou se era um excesso de carinho, de presença, de querer tá junto. Disse que era tudo. Demais.</p>
<p style="text-align: justify;">— Eu&#8230; (eu também te acho demais, Katrina. Nos dois sentidos. Só que o demais pode ser perigoso) Sinto muito, mana. Você tá bem? &#8230;Você parece ótima!</p>
<p style="text-align: justify;">— Bola pra frente, né?! Lembra do papai, como ele adorava cantar pra gente criança?: levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima! Não vou ficar chorando por causa de homem. Bom, chorei, já. Ontem. Bastante até. Mas hoje é outro dia. Vai passar. Se eu sou demais, tem muita gente aí no mundo pra esparramar meu amor. Você quer que eu te leve na academia?</p>
<p style="text-align: justify;">— É aqui pertinho, eu vou a pé.</p>
<p style="text-align: justify;">— Então eu vou com você. Aproveito e pergunto o preço, se me dão desconto por você já ser aluna. De quebra dou uma olhada na clientela, já que… né?! ­— Piscou do olho direito.</p>
<p style="text-align: justify;">— Você nem mora nesse bairro, Katrina.</p>
<p style="text-align: justify;">Achei que fosse redarguir, mas não. Por um momento&#8230; um hiato. Olhou as próprias mãos e alisou uma veia mais aparente, esticando a pele.</p>
<p style="text-align: justify;">— Não tem problema, é só pra&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">— Por que você não passa aqui no fim da tarde? João vai ter voltado da escola, ele te ajuda a espairecer, vocês podem assistir aquele seriado que ele te falou, Ru Paul´s Drag Race. É a sua cara, várias drag queens desfilando, produzidas, você vai amar. Ronaldo só chega tarde, eu faço pipoca pra vocês.</p>
<p style="text-align: justify;">— Hm. Pode ser. — De novo o sorriso de boca fechada, dessa vez mais curto, antes de borrar o batom na borda da xícara. — Às cinco?</p>
<p style="text-align: justify;">— Às seis é melhor.</p>
<p style="text-align: justify;">Ergueu o braço esquerdo chacoalhando as pulseiras quase até o cotovelo.</p>
<p style="text-align: justify;">— Cinco e meia, pronto! — E se levantou num repente. — Não vou te atrapalhar mais, então. Eu volto de tarde.</p>
<p style="text-align: justify;">Pegou a bolsa e foi destrancando a porta ela mesma. Realongou as vogais ao se despedir:</p>
<p style="text-align: justify;">— Beeeijo, maniiinha! Até logo!</p>
<p style="text-align: justify;">Espaventou-se pelo corredor, batendo os saltos no piso, sem agradecer o café. Pipoca, preciso comprar pipoca.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>— publicado originalmente na <a href="https://viciovelho.com/2021/08/15/katrina-thassio-ferreira/">revista Vício Velho</a></em></p>
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		<title>maestrina &#038; retrato de moça no vagão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[thassio]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 07 Feb 2025 12:17:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[outras prosas]]></category>
		<category><![CDATA[revista vício velho]]></category>
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					<description><![CDATA[duas prosas curtas, pequenos esboços de mulheres]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>Maestrina</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Por vezes ela se empolgava, narrando algo, nesse tesão que nos atiça desde a primeira mulher nascida diferente de sua mãe, assim: humana — sendo evidente que a primeira humana foi mulher, só não me peçam as evidências — e mesmo que a mãe de todas nós ainda não tivesse a linguagem com que narrar e gozar esse tesão que ela nem sabia inaugurar, tenho certeza: também se empolgava, tentando, querendo, inalcançando — o que talvez até hoje a gente siga mais que conseguindo, e talvez até isso seja parte da empolgação, mas ela se entusiasmava como poucos, torrente caudalosa ritmada, palavras como chuva a galope, música sem partitura tecendo-se a partir do próprio movimento dos lábios, ao correr da língua, regente e orquestra inteira no som daquela voz a nossos ouvidos atentos, até que tropeçou:</p>
<p style="text-align: justify;">— &#8230; maestral (!) –– a boca ainda aberta, feito dedo exato na guitarra sem mover-se, bochecha inchada no trompete, arco de violino a meio voo rumo à corda, mão suspensa sobre a pele do tambor. Inclinou levemente a cabeça, em desconcerto:</p>
<p style="text-align: justify;">— Maestral&#8230; Existe essa palavra?</p>
<p style="text-align: justify;">Eu, sedento, interessado mais na música que no sentido, muito!, querendo seguir gozando meu tesão de ouvir como o segundo ser humano (talvez um homem) ouvindo a primeira ser humana em seu gozo de narrar, respondi-lhe breve:</p>
<p style="text-align: justify;">— Isso importa?</p>
<p style="text-align: justify;">Sorriu.</p>
<p style="text-align: justify;">E a música se refez em seus lábios.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Retrato de moça no vagão</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Ela chora, encolhida contra a parede do vagão, apoiada numa perna esticada, tesa, enquanto a outra, semi-flexionada, vibra nervosamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Usa um vestido de Rorcharsch: naquele pranto, o fundo negro do tecido, seu corte reto e certa poeira cinza agarrada à barra dão-lhe ar de angustiado desamparo, quase um luto moderno sob a dor movendo-se sobre a pele. Mas a quem não lhe reparasse o rosto, ou lhe flagrasse em sorriso, num outro dia, num outro vagão, a estampa florida com seus amarelos e laranjas diria em voz risonha algum desenho mais alegre.</p>
<p style="text-align: justify;">Colado ao rosto: o celular. Uma presença que não é bem presença — tão distante e tão próxima (ali, logo ali) do meu olhar pungido — desenha-lhe estampa de aquarela na face, fios d’água escorrendo, os cantos da boca crispados, cabelo desarrumado caindo-lhe um pouco sobre os olhos.</p>
<p style="text-align: justify;">Fala, abafadamente, tudo é tão abafado neste vagão, e não ouço, como não ouço aquela presença em voz que lhe chega pelo telefone.</p>
<p style="text-align: justify;">Não ouço, mas vejo, em meio a tanta gente que não vê as gentes outras ao redor: ela chora. Uma moça chora à minha frente, no metrô de fim de tarde. Não desvio os olhos, mas por razões diversas das tuas, que percorre essas linhas buscando saber o que aconteceu ou acontecerá em seguida: não preciso entender. Olho-a chorar, apenas, tão misteriosamente humana e incompreensível quanto eu. Até que chega minha estação.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>— publicado originalmente na <a href="https://viciovelho.com/2021/06/11/duas-thassio-ferreira/">revista Vício Velho</a></em></p>
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