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	<title>?! &#8211; Thássio Ferreira</title>
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	<description>Escritor</description>
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	<title>?! &#8211; Thássio Ferreira</title>
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		<title>caraminholas sobre Torto Arado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[thassio]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 07 Feb 2025 12:04:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[?!]]></category>
		<category><![CDATA[outras prosas]]></category>
		<category><![CDATA[revista vício velho]]></category>
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					<description><![CDATA[um ensaio crítico-viajandão sobre o romance de Itamar Vieira Jr. e suas possibilidades]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>Caraminholas sobre <em>Torto Arado</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">Demorei a ler o <em>Arado</em>. Por coincidência, peguei-o pouco depois de receber a leitura crítica do meu livro de contos (ainda em construção), que expandiu largamente a maneira como escrevo e leio. O duplo impacto — absorver um entendimento mais técnico das estruturas da prosa e vivenciar (não escolho a palavra à toa) o fenômeno que o livro está sendo (nem o gerúndio) — fecundou algumas caraminholas na minha cabeça.</p>
<p style="text-align: justify;">Personagens e cenas são os elementos mais intensos e grandiosos do romance. As figuras humanas não são apenas profundas, mas o são de um tal modo a nos tocar também profundamente. Em parte, nossa conexão com elas acontece porque Itamar nos dá o que precisávamos e queríamos, em termos de quem e como são romanceadas no atual momento histórico brasileiro. Tendemos a considerar este aspecto como extraliterário, mas a costura entre o estritamente literário e seu fora interessa menos que a obra em si: ao mesmo tempo bem urdida e necessária, simbólica, (in)conveniente no bom sentido de quebrar a ausência de um romance como este.</p>
<p style="text-align: justify;">A realização imagética é assombrosa. Desde a já antológica cena inaugural, a descrição dos movimentos interativos entre as personagens, do que <em>acontece</em>, propriamente, quase sempre alcança uma alta voltagem, sustentada na inventividade da situação e equilibrada entre o que se conta e o que imaginamos através das frestas.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é um livro perfeito (será que existe?<a href="#_ftn1" name="_ftnref1"><sup>[1]</sup></a>). Fragilidades foram apontadas <a href="https://rascunho.com.br/colunistas/perto-dos-livros/casas-definitivas/">aqui</a>, <a href="https://theintercept.com/2021/02/23/reflexao-minha-avo-torto-arado-lingua-apunhalada-itamar-vieira-junior/">ali</a> e <a href="https://baraodarale.wordpress.com/tag/itamar-vieira-junior/">acolá</a>, em geral relativas à linguagem que recheia a composição. Sem necessariamente concordar com todas as críticas, acho-as relevantes. A leitura de ficção é sempre subjetiva, e por conseguinte, a percepção de qualidades/problemas de um texto também.  Percepções variadas enriquecem a subjetividade de quem já leu ou vai ler a obra, assim como as possibilidades artísticas daquele autor e de todes nós outres.</p>
<p style="text-align: justify;">Embora eu não pretenda fazer exatamente uma crítica literária, vale apontar alguns aspectos menos felizes do romance. Ao lado de passagens especialmente bonitas, circulei trechos onde sobressaíam engenho ou derrapadas narrativas, como uma narradora-personagem agindo como onisciente, afirmando o que se passa na mente de outra personagem (Bibiana sobre o prefeito na cerimônia de jarê, p. ex.); ou repetições em demasia (de variados tipos), especialmente na primeira parte. O registro de Belonísia me pareceu, por vezes, formal demais — por exemplo, usando “haver” como verbo auxiliar em tempos compostos. Para uma personagem do interior que abandonou a escola, soa deslocado.<a href="#_ftn2" name="_ftnref2">[2]</a></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Torto Arado</em> é maior que suas fraquezas. Não é pouca coisa. Antes dele, enquanto reescrevia meus próprios textos em prosa (todos), reli os contos de Clarice, tentando aprender um cadinho. Alguns, como “A imitação da rosa”, são irretocáveis, outros são irregulares, e uns poucos não fariam grande falta (pronto, falei). Mas, quase sempre, a melhor escritora brasileira de todos os tempos<a href="#_ftn3" name="_ftnref3">[3]</a> consegue justo isto: um todo cuja qualidade extrapola seus pontos fracos. Inclusive nos romances, como <em>Uma Aprendizagem</em> (meu favorito) ou <em>A paixão segundo G.H.</em> (frequentemente dito sua obra-prima).</p>
<p style="text-align: justify;">Apesar de Clarice, zelosa de seus inalcances, ter escrito que “até cortar os defeitos pode ser perigoso — nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”, às vezes uma empreitada de aprimoramento vale a pena.</p>
<p style="text-align: justify;">Então as caraminholas foram surgindo. Vem comigo: e se no contato com uma obra literária, nós a olharmos não apenas “para trás”, como finalizada, mas tomar/tornar o publicado como um marco inicial, obra viva, passível de ser reelaborada e reelaborada pelo autor — se, quando e até onde quiser? Flexionar a fixação do texto, digamos ­— a própria expressão já indica que o apego excessivo a uma versão definitiva pode não ser tão saudável, tolhendo possibilidades e multiplicidades artísticas que talvez engrandeçam a obra e nossa relação com ela.</p>
<p style="text-align: justify;">Em muitas artes, diferentes versões de um mesmo objeto convivem numa boa. Qual a melhor versão de Gil para “Aqui e agora”: a primeira, mais colorida, ou a pura voz e violão, trinta anos depois, em <em>Gil Luminoso</em>? A de Nina Simone para “House of the rising sun”: elétrica em <em>Nina sings the blues,</em> ou soturna em <em>Live at the Village Gate</em>? Van Gogh pintou cinco <em>Girassóis</em>. Munch fez quatro versões de <em>O Grito</em>: em óleo, têmpera, pastel e litografia. Na tela original, acrescentou a frase “Só poderia ter sido pintado por um louco”, depois de ter exibido o quadro, como resposta às críticas recebidas<a href="#_ftn4" name="_ftnref4">[4]</a>. Duas pinturas de Picasso, ambas intituladas <em>Três Músicos</em>, são ao mesmo tempo bem parecidas e bem diferentes. Bob Dylan, que afinal tem um Nobel de literatura na mochila, lançou em 2015 um álbum inteiro com gravações alternativas de sua música mais famosa (e favorita): “Like a Rolling Stone”, feitas na mesma sessão de estúdio da versão original. Qual a letra mais bonita de “Lígia”: a cantada por Tom e Chico ou a de João Gilberto?<a href="#_ftn5" name="_ftnref5">[5]</a></p>
<p style="text-align: justify;">Apesar do google e do auxílio informal de amigos, não encontrei muitos exemplos dessa liberdade entre escritores. Murilo Mendes revia incessantemente seus trabalhos. Lembro-me de oficinas de poesia e crítica que frequentei em 2020, nas quais a possibilidade de reelaboração dos textos (bem como reelaboração da leitura de textos alheios), no esteio do diálogo com as/os colegas, foi um baita aprendizado. Talvez este modo de encarar a obra, como algo em permanente mutação, soe menos estranho a poetas — para quem o ordinário pode parecer estranhíssimo, e o inusitado, quase natural. Outro Murilo, o Rubião, também reescrevia sem trégua seus contos. Mas é no ídolo maior do panteão antigo que encontro o caso mais interessante: Machado e seu <em>Quincas Borba</em>.<a href="#_ftn6" name="_ftnref6">[6]</a></p>
<p style="text-align: justify;">O romance foi publicado primeiro como folhetim quinzenal, ao longo de cinco anos. Depois, em livro, com significativas diferenças. As razões e o teor das mudanças são específicas (p.ex., os públicos diversos, à época, para os dois formatos), mas essa liberdade, o despudor em eviscerar a própria obra e reconstruí-la, é poderosa ferramenta a nossa disposição para ser usada em variados contextos.</p>
<p style="text-align: justify;">Enviei uma primeira versão desta coluna a alguns escritores, para trocarmos figurinhas — se proponho considerar textos diversos como em processo, como nunca-finalizados, é justo começar pelo meu. Apenas um citou o <em>Quincas</em>, brevemente, dizendo que havia mais de uma versão do romance, mas sem lembrar os detalhes da história, que eu desconhecia completamente. Desde o começo, imaginei que minha caraminhola não seria inédita, mas é tão incomum reelaborar um romance inteiro já publicado, que o exemplo do nome mais canônico de nossa literatura anda largamente esquecido.</p>
<p style="text-align: justify;">E por que não? Tendo o expediente já sido usado até por Machado, o que impede ampliarmos seus horizontes, para além da transposição de um formato (folhetim) para outro (livro), e enxergarmos — escritores (críticos) e leitores — a obra publicada como em construção, por tempo e de modos irrestritos? Desfixar (ou pelo menos debater) o pressuposto de que ao analisar um livro o consideramos pronto, concluído. Aproximar a escrita da performance (como nos exemplos musicais), apta a sua própria reelaboração. Baralhar o tempo e abraçar a possibilidade de N versões subsequentes &amp; simultâneas de um mesmo livro, sem que necessariamente esta ou aquela prevaleça sobre as outras (sensibilidades diversas podem preferir versões diferentes, com seus acertos e erros específicos).</p>
<p style="text-align: justify;">Evidentemente, Itamar faz de sua escrita o que desejar. Pode não estar interessado em revisitar o romance (textos recentes, como o da Revista Época<a href="#_ftn7" name="_ftnref7">[7]</a>, mostram sua habilidade inquieta já produzindo novidades). Ou até concordar que certos aspectos da obra poderiam melhorar, mas preferir mantê-los do exato jeito que estão.</p>
<p style="text-align: justify;">Em paralelo, qualquer escritor pode reescrever suas obras, a ideia não se prende ao <em>Arado</em>. Mas a conjunção muito especial de fatores (em torno) do livro, desde suas qualidades (pelo tamanho e pelo tipo), suas fraquezas, seus próprios abertos, seu alcance único em tempos recentes, para além da bolha literária (carregando consigo vários alcances de dentro), é o que me botou a caraminholar sobre a lindeza que seria ver essa árvore plantada na Chapada Diamantina florescer ainda mais.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta, inclusive, é outra qualidade infrequente: nos atiçar a querer mais. Há livros também melhores que a soma de seus pontos cegos, e que simplesmente compreendemos, apreciamos e seguimos em frente. <em>Torto Arado</em>, ao menos a mim, provocou outro olhar, que não se encerra no já realizado, mas se anima com o tanto que vislumbra poder frutificar a partir dele, devaneando subjuntivos: e se? Que delícia seria!</p>
<p style="text-align: justify;">Os caminhos são muitos. Como Machado, podemos pensar em uma versão revista pelo autor e pronto: aprimorada num sentido estrito (e subjetivo). Ou, a exemplo de <em>cantautores</em> e pintores, em versões múltiplas, desierarquizadas, sem preocupações com a tal fixação do texto. Ou, ainda, textos independentes que se agreguem ao existente, em mosaico. O romance, como poucos que conheço, é multiplicável tanto internamente, crescendo trechos, capítulos, alterando seu curso feito rio na cheia; quanto externamente, semeando e irrigando contos, novelas, outro romance até. Cenas de infância pela voz da caçula Domingas. Bibiana longe da terra, quem sabe na voz masculina de Servo: contraponto. O Rio Utinga narrando-se, desde antes de Donana e depois, em prosa encantada por Santa Rita Pescadeira e João Cabral.</p>
<p style="text-align: justify;">A seu favor, Itamar tem alguns trunfos: o fenômeno cultural em pleno curso, seu talento imagético e as características específicas da obra, como a força das personagens e esse caráter expansível, advindo de outro feito raro que alcançou logo na estreia como romancista: ter fundado um manancial, de onde ainda pode nos dar muito a beber, se quiser, e talvez fazer seu livro maior do que já é. Enquanto outros romances possuem um caráter mais fechado em si mesmos, sendo difícil imaginar que deles se ramifiquem procedimentos assim, a Fazenda Água Negra e seu povo têm um potencial enorme de se tornarem um universo.</p>
<p style="text-align: justify;">Enquanto formigo meus próprios dedos reescrevendo prosas e versos como os dois Murilos (romances são imensidades para as quais ainda me falta coragem — ou competência), aceno com carinho a este baiano que chacoalhou nossa literatura e ampliou nosso público:</p>
<p style="text-align: justify;">querido, tem nas mãos seu arado de escritor, sua obra semente — cujas raízes <em>adentram</em> cada vez mais no imaginário brasileiro — e a terra fértil de leitores encantados. Eu, ao menos, adoraria comer mais do que você plantou. Como adubo para multiplicar os frutos e sabores do seu pé de literatura, valei-nos as palavras de Raduan, escolhidas na epígrafe de seu caudal: amor, trabalho, tempo.<a href="#_ftn8" name="_ftnref8">[8]</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>— publicado originalmente na <a href="https://viciovelho.com/2021/04/13/caraminholas-sobre-torto-arado-thassio-ferreira/">revista Vício Velho</a></em></p>
<p>&nbsp;</p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ftnref1" name="_ftn1">[1]</a> Nota de rodapé é chique, né? Segundo a editora/leitora crítica lá do primeiro parágrafo, há uma única obra perfeita na literatura brasileira: <em>Grande Sertão</em>. Não posso corroborar porque aproveito a nota para expor-escondendo: nunca terminei o livro. Mas é uma das metas de 2021. Afinal, segundo um escritor amigo, “a gente só fala português para ser capaz de ler o <em>Grande Sertão: Veredas</em> no original”.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ftnref2" name="_ftn2">[2]</a> O uso de estruturas cultas da língua por personagens que em tese não as dominam é ponto complexo, inclusive para não se reforçar a exclusão de pessoas e personagens desse terreno. Em artigo sobre a poesia de Claudia Rankine para o Suplemento Pernambuco (nº 179 – janeiro 2021), Stephanie Borges diz que a poeta “desperta uma série de questionamentos sobre como falar de experiências negras sem esquecer que usamos uma linguagem que nos é hostil. Nós disputamos os significados das palavras (&#8230;) mas sempre há lembretes de que não somos bem vindas”. Parte do tratamento sintático/lexical no livro pode ser visto como apossamento dessas estruturas (hostis), o que o torna bem vindo. Também pode ser lido como manifestação de características das personagens (p.ex, um desejo de “falar bonito”, em oposição a um beletrismo <em>do autor)</em>. Embora, a meu ver, certas construções apontadas não tenham sido tão bem calibradas (ou justificadas narrativamente), entre os diversos modos possíveis de se ler o/um romance, incluem-se os que depurem méritos em elementos da linguagem criticados por outros.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ftnref3" name="_ftn3">[3]</a> Outra fofoca de rodapé: amigo poeta me diz achar Clarice superestimada. Depois de contar até dez e beber um copo d’água, brinco: afora quem venera o deus antigo Machadão, fãs em Pindorama costumam se agregar em duas seitas literárias: roseanos e clariceanos (Drummond corre por fora, <em>à gauche</em>). Aqui é <em>#teamclarice</em>!</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ftnref4" name="_ftn4">[4]</a> <a href="https://www.uol.com.br/splash/noticias/2021/02/22/curadores-resolvem-misterio-por-tras-de-frase-oculta-escrita-em-o-grito.htm">A confirmação de que a frase foi escrita pelo próprio Munch</a>, e não por um terceiro, é recente.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ftnref5" name="_ftn5">[5]</a> Antes que apontem exagero na comparação de Itamar com Picasso, Clarice, etc., sublinho que a ilustração é, bem, ilustrativa. E ao traçar paralelos, no intuito de caraminholar caminhos por onde uma obra/um artista pode ir, que seja com os grandes, não com os Zé-Eu da vida, ora.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ftnref6" name="_ftn6">[6]</a> O qual também nunca li — então vocês me perdoem a cara de pau, mas acredito que as ideias apresentadas se sustentam apesar das lacunas no meu currículo.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ftnref7" name="_ftn7">[7]</a> “Debaixo d’Água”. <em>Época nº 1173 &#8211; Gritos contra o silêncio</em>, 11.01.2021</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="#_ftnref8" name="_ftn8">[8]</a> fim/começo: como dito, a caraminhola de se encarar uma obra como em permanente processo é aplicável a qualquer texto — tanto por quem o escreve(u) quanto por quem o lê(u). Façamos isto, pois, com este pretenso ensaio, e para maior diversão, de maneira colaborativa: sintam-se à vontade.</p>
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		<title>des-modos (ensaio crítico)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[thassio]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Feb 2025 12:44:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[?!]]></category>
		<category><![CDATA[+poesia]]></category>
		<category><![CDATA[outras prosas]]></category>
		<category><![CDATA[revista vício velho]]></category>
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					<description><![CDATA[uma leitura de Íntimo Desabrigo, livro de poemas de Tarso de Melo]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong><em>des-modos</em></strong></p>
<p><em> </em></p>
<p style="text-align: right;"><em>“deve-se lembrar que tudo depende da sabedoria do intérprete. Quando este se abeira respeitoso da densidade do objeto estético, reconhecendo que a sua teoria, por mais científica e rigorosa que pareça, não vai ´explicá-lo´ uma vez por todas, mas apenas tentará compreender alguns dos seus significados e dos seus processos de expressão, o risco de determinismo será esconjurado desde o primeiro olhar do analista.”</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>(Alfredo Bosi — Sobre Alguns modos de ler poesia: memórias e reflexões, in Leitura de Poesia)</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">Em nota ao fim de <em>Íntimo Desabrigo</em> (Dobra Editorial e Alpharrabio Edições, 2017), Tarso de Melo informa que muitos dos poemas foram escritos “no meio do redemoinho, no lugar e na hora em que foi possível nascer. Talvez por isso o livro tenha (&#8230;) tantas manchas do tempo surrado de que é fruto e sintoma.” Mesmo após três (tumultuadíssimos) anos de sua publicação, a obra segue com força(s) impressionante(s).</p>
<p style="text-align: justify;">Desde o começo, marca-se nos poemas uma presença constante do desejo, a qual tende a se manifestar reiteradamente no âmbito da recusa, do desfazimento: o poeta quer desconstruir o (mundo) que vê, por reconhecer nele a barbárie galopante. Poucos hão de discordar que tal barbárie só venha piorando&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Atravessam o livro formulações desejantes (queria, por favor, dai-me, procuro, sonho, consiga, peço) e formulações de negação (não, não sei, esqueça, não faz sentido, nunca, e — em especial — o uso intenso do prefixo <em>des</em>: desfizesse, desprezo, desabito-me, desatenção, desmanche, Deseducação). Por vezes somam-se: quando o <em>des-alguma coisa</em> é o próprio modo de querer (“um deus que desfizesse / talvez tivesse hoje a minha fé”); por outras se opõem: quando se recusa um <em>des-alguma coisa</em> que parece desagregar e desumanizar o mundo cada vez mais (“Não suporto as fotos em que Veronica desaparece”).</p>
<p style="text-align: justify;">E agora, José? Diante das visões do horror (aliás, “foto” é outro signo recorrente no livro), como deve a poesia <em>se portar</em>? Aqui o projeto poético do livro se aprofunda e se complexifica. Para além do campo temático e de nomeação da realidade a se descosturar, temos a própria obra se fragmentando, articulando ampla gama de recursos, não como puro espelho do mundo, mas celeiro de caminhos. Diversamente a livros cuja força reside na solidez de um projeto uniforme, aqui a variabilidade predomina: alguns poemas inteiros em minúsculas, outros respeitando maiúsculas; alguns com pontuação normativa, outros sem (e até um deles <em>clariceanamente</em> findo numa vírgula, após estrofes terminadas com ponto final); poemas em prosa; poemas em tons, metros, ritmos, esquemas rímicos e tamanhos variados; as inventividades dos “poemas incidentais”; e por fim o (anti)poema que encerra o livro, rearranjando em versos uma sentença judicial, aplicando ao âmbito jurídico um tipo de procedimento já visto, por exemplo, no campo do cotidiano (Kenneth Goldsmith/Marília Garcia/Leonardo Gandolfi) e do político (Roy Frankel).</p>
<p style="text-align: justify;">Tal variedade, pelas recorrências que a permeiam, revela não se tratar o conjunto de algum tipo de <em>apanhado </em>aleatório (como enganosamente se poderia pensar em leitura apressada da citada nota ao fim do volume), mas de um projeto (bem) pensado e (bem) amarrado de multiplicidades a se tecerem “no meio do redemoinho”, buscando de algum modo apontarem como sair do furacão.</p>
<p style="text-align: justify;">Isto porque as multiplicidades desdobram significações diversas: além do mencionado espelhamento da realidade desagregada, é também um reconhecimento do poeta de não possuir resposta única à pergunta que previamente articulamos (“como deve a poesia se portar?” — “Não Sei”, responde o título da 1<sup>a</sup> parte do livro) e, ao mesmo tempo, indicação de que a melhor resposta pode ser a convivência de respostas, de possibilidades, de modos.</p>
<p style="text-align: justify;">Este último aspecto desdobra-se ainda mais, na medida em que estabelece uma relação de mãos duplas/múltiplas entre o mundo e a poesia, corporificada na linguagem. A pluralidade, acolhedora, abraça a diversidade não apenas como um <em>não-sei</em>, mas também como um <em>talvez-desses-jeitos-consigamos</em> que a poesia torne a <em>dar conta do </em>mundo, no sentido que ultrapassa o de retratar o real, na direção de incidir sobre ele. Ao desdobramento da pergunta: “como a poesia deve se portar <em>para ser também uma arma contra a barbárie</em> (em vez de apenas expô-la)?”, os recursos manejados por Melo, além de exporem os efeitos causados em si/nós pela vida<a href="#_ftn1" name="_ftnref1">[1]</a> e pela própria poesia<a href="#_ftn2" name="_ftnref2">[2]</a>, constroem efeitos que a poesia pode causar sobre a própria linguagem e sobre o mundo. Afinal, a linguagem é ferramenta de ação sobre a realidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, o autor amplia o ferramental poético disponível para si, para seus contemporâneos e para o futuro, através deste fragmentar e re-unir fragmentaridades<a href="#_ftn3" name="_ftnref3">[3]</a>, fortalecendo as potências diversas da poesia brasileira. Não através de uma experimentação <em>radical</em> da linguagem, propriamente, mas da soma de variadas experimentações, sem abrir mão de instrumentos há muito familiares, usados com grande habilidade — como a sonoridade posta em alto relevo por assonâncias, aliterações e rimas internas.</p>
<p style="text-align: justify;">Vale registrar como certas imagens e dicotomias percorrem o livro enriquecendo esses processos, pela força simbólica que carregam, como as reiterações a fogo e água, signos de transformação que podem tanto destruir como fazer renascer; ou choro e sorriso, que remetem a ciclos de perda e refortalecimento. Imagens do que fere, menções a diversos tipos de arma, evocando tanto a barbárie <em>em si</em> quanto os desagregares (do poeta, de nós, da linguagem), assim como <em>sonho</em>, também abundam.</p>
<p style="text-align: justify;">E, feito sombra por trás das páginas, uma ideia de <em>inalcance</em><a href="#_ftn4" name="_ftnref4">[4]</a> entrelaçada a tudo que referimos: inalcance em desfazer as atrocidades (“como um aviso de que 516 anos foram pouco. Eles querem mais”) ou se evadir delas, assumindo integralmente, pois, seu estar no mundo; em saber as respostas (“e não sabemos o que fazer com as mortes de amanhã”), sem nem por isso se furtar a buscá-las; em fazer da poesia instrumento de maior efetividade contra a selvageria (“Uma palavra a mais não dirá nada”), mas ainda assim empunhando suas tentativas. Em contraponto, temos outra sombra, mais cálida, entranhada nas páginas, latejando como também um caminho/resposta, dos mais importantes: o afeto<a href="#_ftn5" name="_ftnref5">[5]</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Contudo, embora reconheçamos a presença deste afeto, espalhando-se como bálsamo, o tom da obra (e sua maior força) é mais de espinhos que flores, condensando-se em alguns momentos- síntese do livro, como os poemas Shodô (“e quando rasgamos o papel não rasgamos o que as palavras já fizeram conosco | e quando sujamos o papel com o que nos suja não há mais retorno”) e Inóspitos (“é preciso / exercitar / e desadestrar / continuamente / os ouvidos / para sacar / dos versos / sua sinfonia / insólita / nada óbvia / de mil vozes / discordes”), ou o trecho de Gomapseumnida abaixo, tanto em seu desamparo explícito como em sua obstinação de seguir apesar da perplexidade, íntimo desabrigo no qual talvez nos encontremos todos que comungamos com Melo de um mínimo de sensibilidade, indignação e pasmo:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>“&#8230; e você segue</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>poeta perdido num lugar</p>
<p>em que todas suas palavras</p>
<p>não servem para nada</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>você segue, com a língua nua</p>
<p>indefesa, vulnerável</p>
<p>soterrada sua pretensão</p>
<p>de saber dizer tudo”</p>
<p>&nbsp;</p>
<hr />
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1">[1]</a> p. ex. os poemas “A foto”, “Shodô” e “Barras”.</p>
<p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2">[2]</a> p. ex. os poemas “Cadernetas”, “Canto”, “Estilhaços” e “Desajustes”.</p>
<p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3">[3]</a> p. ex. os poemas “Nota para quando eu for um sábio chinês de um século distante”, “Oração” e “Feitio de oração”.</p>
<p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4">[4]</a> p. ex. os poemas “Onde”, “Fuga” e “Convenção”.</p>
<p><a href="#_ftnref5" name="_ftn5">[5]</a> p. ex. os poemas “Companheiro”, “Maria”, “Beliche” e “Legendas para fotos que não há” e as dedicatórias singelas espalhadas pelo livro.</p>
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		<title>Antologia Ponte de Versos 25 anos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[thassio]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 27 Jun 2024 06:05:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[?!]]></category>
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					<description><![CDATA[Celebrar a poesia, porque sim. Apesar de tanto.

Vinte e cinco anos não é toda sexta. mas nesta, logo ali, dia 28/06, às 18h, na Blooks Livraria do Rio de Janeiro, seremos. Ponteados. ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Celebrar a poesia, porque sim. Apesar de tanto.</p>
<p>Vinte e cinco anos não é toda sexta. mas nesta, logo ali, dia 28/06, às 18h, na Blooks Livraria do Rio de Janeiro, seremos. Ponteados.</p>
<p>O sarau Ponte de Versos, jornada poética que hoje tem como anfitriã Thereza Christina Rocque da Motta, celebra seus 25 anos com uma antologia que reúne 78 poetas, dentre nomes como Ana Maria Machado, Antonio Cicero, Alberto Pucheu, Carmen Moreno, Christovam de Chevalier, Hélen Queiroz, Mano Melo, Mariana Imbelloni, Nuno Rau,  Salgado Maranhão, Tanussi Cardoso e, modestamente (mas com muito orgulho!), este aqui: um tal de thássio, dizem que ferreira.</p>
<p>Venham, vamos &amp; vivas!</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>Sobre o autor</title>
		<link>https://thassioferreira.com/sobre-o-autor/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[thassio]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 22 Jun 2023 11:38:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[?!]]></category>
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					<description><![CDATA[São Gonçalo, 1982.

Esta fórmula sintética é comum para identificar autores: local e ano de nascimento.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">São Gonçalo, 1982.</p>
<p style="text-align: justify;">Esta fórmula sintética é comum para identificar autores: local e ano de nascimento. Mas como poetou Mario de Andrade, <em>pátria é acaso de migrações</em>&#8230; Recém-nascido, vivi poucos dias em São Gonçalo. Cresci na cidade vizinha, Niterói, e quando adulto me mudei para o Rio de Janeiro. Gosto de dizer que sou um cidadão da Baía de Guanabara.</p>
<p style="text-align: justify;">Não que meus endereços sejam relevantes a quem me lê. Vamos então ao que importa: publiquei o livro de contos <strong><em>Nunca estivemos no Kansas</em></strong> (Patuá, 2022) e os de poesia <strong><em>agora (depois)</em></strong> (Bem Te Li, 2019), <strong><em>Itinerários</em></strong> (Ed. UFPR, vencedor do I Concurso Literário da UFPR, 2018) e <strong><em>(DES)NU(DO)</em></strong> (Ibis Libris, 2016). Escrevo a coluna <a href="https://viciovelho.com/alguma-coisa-em-mim-que-eu-nao-entendo/"><em>Alguma coisa em mim que eu não entendo</em></a>, na Revista Vício Velho, e já contribuí em prosa e verso para publicações como Revista Brasileira da Academia Brasileira de Letras, Rascunho, Aboio, O Relevo, Escamandro — <em>poesia tradução &amp; crítica</em>, Ruído Manifesto, Gueto, Mallarmargens, Germina, Revista Ponto (SESI-SP) e InComunidade (Portugal). Em 2022, poemas do livro <em>Itinerários</em> foram traduzidos para o <em>castellano rioplatense</em> (<em>una lengua frontera</em>, segundo o tradutor argentino), no blog <a href="https://alpialdelapalabra.blogspot.com/2022/08/thassio-ferreira-poemas-de-itinerarios.html">alpialdelapalabra</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Meu livro inédito <em>Cartografias</em> conquistou o Prêmio Cidade de Manaus 2020 e foi finalista do Prêmio Sesc 2017. O conto “Tetris”, que integra o livro <em>Nunca estivemos no Kansas,</em> ganhou o Prêmio Off Flip 2019.</p>
<p style="text-align: justify;">Participei na programação independente da FLIP — Festa Literária Internacional de Paraty, em 2020 como um dos anfitriões no Sarau Erótico da Casa dos Desejos; em 2018 e 2019 como realizador e debatedor da Casa Philos; e em 2017 na Casa LIBRE (Liga Brasileira de Editoras) &amp; Nuvem de Livros, dentre outros festivais de literatura e artes, como Festa Literária de Santa Teresa-RJ (FLIST), Festival Literário de Poços de Caldas (Flipoços), Primavera Literária/RJ, Feira Internacional do Livro de Foz do Iguaçu, Salão Carioca do Livro – LER e Festa Literária de Santa Maria Madalena– RJ. Fui editor e curador da Revista Philos de Literatura Neolatina.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma amiga costuma dizer que tem a autoestima alta, porém frágil. Nós artistas também. Por isso agradeço a todes pelo reconhecimento ao meu trabalho. Para me contactar, adoro e-mails 🙂 : <a href="mailto:thassioescritor@gmail.com">thassioescritor@gmail.com</a>.</p>
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		<title>entrevista: portal ArteCult</title>
		<link>https://thassioferreira.com/entrevista-portal-artecult/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[thassio]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Aug 2022 14:06:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[?!]]></category>
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					<description><![CDATA[Entrevista concedida ao programa AC Encontros Literários. Para ler na íntegra, incluindo contos e poemas inéditos, acesse o Portal ArteCult.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Entrevista concedida ao programa AC Encontros Literários. Para ler na íntegra, incluindo contos e poemas inéditos, acesse o <a href="http://artecult.com/ac-encontros-literarios-thassio-ferreira/">Portal ArteCult</a>.</p>
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<p><strong>ArteCult: Como a Literatura entrou na sua vida?</strong></p>
<blockquote><p><strong>Thássio Ferreira</strong>: Quando fui alfabetizado, ganhei alguns livros infantis de presente, e um deles, chamado No reino da pata Leca, era todo em versos rimados, e este jogo de linguagem me encantou de imediato — ou seja, meu gosto pela ficção escrita vem desde o momento em que fui capaz de compreendê-la.</p></blockquote>
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<p><strong>AC: Especificamente com relação ao ofício de escrever, que procedimentos costuma adotar? Escreve todos os dias? Reescreve muito? Mostra para alguém durante o processo?</strong></p>
<blockquote><p><strong>TF</strong>: Procuro escrever com frequência, mas não me cobro de forma excessiva. A escrita (me) demanda certa disciplina, mas o tempo da criatividade é outro, tem seu próprio tempo. A reescrita, por outro lado, é quase uma obsessão. Não considero meus textos prontos e acabados nem quando são publicados, e posso decidir revisar uns e outros a qualquer momento. Com o tempo, cultivei um círculo de pessoas a quem gosto de mostrar alguns escritos, pedir impressões, dialogar. Acho essa troca riquíssima.</p></blockquote>
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<p><strong>AC: No seu caso, de onde vem a inspiração?</strong></p>
<blockquote><p><strong>TF</strong>: De “lugares” muito diversos. Tenho certa inclinação a me sentir mais inspirado em contato com a natureza, e quanto mais íntimo esse contato, distanciado do ritmo da vida cotidiana, mais eu me sinto propenso a ter alguma ideia, mesmo que não venha daquele momento ou ambiente; pode ser a canalização de algo observado antes, um elemento único, ou uma reunião de elementos que eu nunca tivesse organizado mentalmente daquela maneira antes. Essa fagulha, seja quando se acende no instante mesmo em que ocorre, seja quando se (re)materializa num momento posterior, pode vir de praticamente qualquer lugar, de qualquer “coisa”.</p></blockquote>
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<div id="attachment_72246" class="wp-caption alignright">
<p><a href="https://thassioferreira.com/wp-content/uploads/2022/08/capa-itinerarios-prateleira.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-2960" src="https://thassioferreira.com/wp-content/uploads/2022/08/capa-itinerarios-prateleira.jpg" alt="" width="1583" height="1583" srcset="https://thassioferreira.com/wp-content/uploads/2022/08/capa-itinerarios-prateleira.jpg 1583w, https://thassioferreira.com/wp-content/uploads/2022/08/capa-itinerarios-prateleira-300x300.jpg 300w, https://thassioferreira.com/wp-content/uploads/2022/08/capa-itinerarios-prateleira-1024x1024.jpg 1024w, https://thassioferreira.com/wp-content/uploads/2022/08/capa-itinerarios-prateleira-150x150.jpg 150w, https://thassioferreira.com/wp-content/uploads/2022/08/capa-itinerarios-prateleira-768x768.jpg 768w, https://thassioferreira.com/wp-content/uploads/2022/08/capa-itinerarios-prateleira-1536x1536.jpg 1536w" sizes="(max-width: 1583px) 100vw, 1583px" /></a></p>
<p class="wp-caption-text"><strong><a href="https://thassioferreira.com/itinerarios-2/"><em>Itinerários</em></a>, de 2018. Livro de poemas foi vencedor de concurso literário promovido pela UFPR. Foto: Divulgação.</strong></p>
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<p><strong>AC: Fale um pouco dos livros que já publicou até hoje.</strong></p>
<blockquote><p><strong>TF</strong>: O mais recente se chama <strong>Nunca estivemos no Kansas</strong> e reúne 22 contos, alguns premiados (Off-Flip 2019, Prêmio Cidade de Manaus 2020 e finalistas do Prêmio Sesc 2017). Existe uma espinha dorsal de teor político que atravessa o livro, não de forma proselitista, mas sim construindo uma cartografia através de histórias e da linguagem, desde um idílio onde nunca estivemos até os dias presentes e além. Antes deste, publiquei <strong>agora (depois)</strong>, que retrata um relacionamento em 52 poemas, ordenados cronologicamente de trás pra frente, desde a superação após o término até o encantamento inicial. Em 2018, lancei <strong>Itinerários</strong>, também de poemas, publicado como obra vencedora do concurso literário da Editora UFPR. Nele, a poesia mais pessoal e a de caráter mais coletivo, político, se entrelaçam e desembocam ainda numa terceira vertente mais onírica e voltada para o espanto das potencialidades da própria linguagem e da criação poética. Este livro pode ser baixado gratuitamente no site da editora (<a href="https://acervodigital.ufpr.br/handle/1884/63940">https://acervodigital.ufpr.br/handle/1884/63940</a>). Meu primeiro livro, também de poesia, chama-se <strong>(DES)NU(DO)</strong>, que é mesmo uma obra de apresentação, em que me revelo aos outros como artista, como poeta.</p></blockquote>
<p><a href="https://thassioferreira.com/wp-content/uploads/2022/07/desnudo_optimized.png"><img decoding="async" class="alignleft size-full wp-image-174" src="https://thassioferreira.com/wp-content/uploads/2022/07/desnudo_optimized.png" alt="" width="376" height="591" srcset="https://thassioferreira.com/wp-content/uploads/2022/07/desnudo_optimized.png 376w, https://thassioferreira.com/wp-content/uploads/2022/07/desnudo_optimized-191x300.png 191w" sizes="(max-width: 376px) 100vw, 376px" /></a></p>
<div id="attachment_72244" class="wp-caption alignleft">
<p class="wp-caption-text"><strong><a href="https://thassioferreira.com/desnudo/"><em>(DES)NU(DO)</em> </a>é o livro de estreia de Thássio Ferreira. Foto: Divulgação.</strong></p>
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<p><strong>AC: O fantasma da página em branco: mito ou realidade? Isso acontece com você? Em caso afirmativo, como lida com a questão?</strong></p>
<blockquote><p><strong>TF</strong>: Tem um tanto de mito e um tanto de realidade. Para escritores que transitam entre gêneros, como eu, creio ser algo mais raro, ou menos paralisante. Se esbarro numa dificuldade muito grande em escrever determinado texto, posso exercitar-me em outro, muitas vezes sem maiores pretensões, apenas como exercício, como forma de me desenvolver. Ainda, para mim funciona muito revisar escritos já existentes, aprimorá-los, ou recorrer a anotações antigas, fragmentos, ideias guardadas que podem ser usadas num momento de escassez.</p></blockquote>
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<p><strong>AC: Um livro marcante. Por quê?</strong></p>
<blockquote><p><strong>TF</strong>: Grande Sertão: veredas, por tantos motivos que é quase clichê e simultaneamente dificílimo enumerar. Pelo trabalho absurdamente intenso com a linguagem, moldada a olhos vistos para ser em si uma experiência estética e comunicacional. Pelo retrato de um Brasil fora do óbvio. Pelas histórias de amor, poder e dúvida que se entrelaçam. Pela ousadia em borrar fronteiras de gênero e sexualidade em plena década de 50 do século XX.</p></blockquote>
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<p><strong>AC: Um escritor marcante. Por quê?</strong></p>
<blockquote><p><strong>TF</strong>: Clarice Lispector, a outra gigante da literatura brasileira, também por motivos inumeráveis. Além do apuro na construção narrativa; das metáforas vertiginosamente inusitadas, muitas vezes incrustadas no ambiente mais cotidiano, intensificando seu efeito; da fluidez do texto (não só o tão incensado fluxo de consciência que ela dominava, mas também os diálogos e mesmo os trechos em narrativa mais “clássica”); e da poesia visceral e delicadíssima de tantas passagens recortadas e repetidas até hoje, existe uma sabedoria na obra clariceana que é fenomenal. Há uma história que ilustra isso, não sei onde li: o Rosa uma vez encontrou Clarice e disse que a lia “não para a literatura, mas para a vida”. Clarice é isto: literatura de alta voltagem que ainda por cima nos ilumina a própria a vida.</p></blockquote>
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<p><strong>AC: Projetos futuros: o que vem por aí nos próximos meses?</strong></p>
<blockquote><p><strong>TF</strong>: Existem alguns contos em andamento que pretendo terminar este ano e o projeto de um romance ainda não iniciado. Também tenho conversado com uma pequena editora do Rio de Janeiro sobre um novo livro de poemas, mas o foco em 2022 é fazer o <strong>Nunca estivemos no Kansas<em>, </em></strong>recém-lançado, chegar a mais leitores. É um livro que dialoga bastante com o tempo presente, e acredito muito na sua força.</p></blockquote>
<p><a href="https://thassioferreira.com/wp-content/uploads/2023/06/Captura-de-Tela-2023-06-18-as-7.42.17-PM-e1687128391484.png"><img decoding="async" class="alignleft wp-image-2932 size-full" src="https://thassioferreira.com/wp-content/uploads/2023/06/Captura-de-Tela-2023-06-18-as-7.42.17-PM-e1687128391484.png" alt="" width="372" height="505" srcset="https://thassioferreira.com/wp-content/uploads/2023/06/Captura-de-Tela-2023-06-18-as-7.42.17-PM-e1687128391484.png 372w, https://thassioferreira.com/wp-content/uploads/2023/06/Captura-de-Tela-2023-06-18-as-7.42.17-PM-e1687128391484-221x300.png 221w" sizes="(max-width: 372px) 100vw, 372px" /></a></p>
<div id="attachment_72247" class="wp-caption alignright">
<p class="wp-caption-text"><strong><a href="https://thassioferreira.com/nunca-estivemos-no-kansas-2/"><em>Nunca estivemos no Kansas</em></a>, coletânea de contos, foi lançado em 2022 pela editora Patuá. Foto: Divulgação.</strong></p>
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<p><strong>AC: Entre os seguidores do canal de Literatura do Portal ArteCult, muitos são aqueles que escrevem ou que desejam escrever. Que conselho ou dica você poderia dar a eles?</strong></p>
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<blockquote><p><strong>TF</strong>: Reescrevam, revisem, reescrevam, não tenham pudor ou dó de cortar, mostrem seu trabalho a outros, para que o critiquem e enriqueçam, e estudem. Hoje em dia, há diversos cursos e oficinas muito úteis para expandir nossa visão e nossos modos de escrita.</p></blockquote>
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