tempo tempo tempo (tentemos acordos conosco)

poemas de tempos, a(o) tempo, sob(re) temporais e tanto mais, pois é sempre tempo

#
mora agora
no azul das horas
contravim carpete
de nevoeiro
em meu banheiro

uma lagartixa
bebê

apelidei-a
tempo

 

 

# gerações

sereno, o pai me olha
(sorrindo) colher acerolas
do pé que plantou há
vinte anos e me obrigava
regar a contragosto
(pelos avessos também)
não tenho essa vaidade:
plantar e ver crescer

meu próprio pó
(já não) me basta

 

 

#
vê-se a mãe
em seu ofício novo
de fazer-se avó
dizer aos olhos
chorosos sobre si:

tudo a seu tempo

e de dentro
da própria
palavra
(pairando no ar
abrindo-se em
alçapões)surge um coringa
a borrar a tinta
e sussurrar

a(o) tempo: tudo (é) seu

 

 

# carma

nalguma vida
que se avizinhe
(se as houver)

voltar vaga
lume
no jardim da casa
onde a vó dançava

 

 

# febre baixa

do sonho
sobra só
a espinha
com suas
verdades escritas
a carbono catorze

mas eu
(pobre humanista)
não sei
quais são
#

envelheço — enquanto tento
não envilecer — não tanto

não tenho o viço
de outra vida — seiva
fluindo — fortalecendo
folhas novas, minhas e
de si próprias — filhos?
dentre muitos vícios
deste me abstive

 

 

#

viver é um gerúndio

até o infinitivo

Livros

lagarta chã

Daí a brisa forte e sadia que vem deste novo livro de Thássio Ferreira, muito felizmente chamado lagarta chã. Algo que responde ao mundo, mas anseia o que não se contenta na resposta – antes convoca, aponta, desdobra.

O que temos aqui é, como nunca deixará de ser necessário, um encantamento múltiplo com o ponto mais chão, a coisa mais chã: das turbinas às lagartas, dos mucos às galáxias, passando pelas casas, as plantas, os poetas, os corpos, as parafernálias que fazem uma vida, muitas vidas.

(Guilherme Gontijo Flores)

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Nunca estivemos no Kansas

Vinte e dois contos que transitam por diversos cenários, relações humanas e estruturas narrativas, construindo uma cartografia de arestas e descaminhos, desde um idílio qualquer onde nunca estivemos — individual e coletivamente — até o presente e além.

Parte dos contos reunidos angariou prêmios como Off-Flip (2019) e Prêmio Cidade de Manaus (2020), foi finalista do Prêmio Sesc (2017) e publicada em veículos como Jornal Rascunho, Revista Garupa e Vício Velho.

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agora (depois)

Em seu terceiro livro, Thássio Ferreira desnovela a linha do tempo de uma história de amor, de trás para frente, em 52 poemas organizados em duas partes: um “agora (depois)” instalado com a separação; e o “agora” anterior, do início do relacionamento até sua crise. Dividindo esses dois tempos, um retrato em prosa do momento fatal em que o barco se desamarra do cais.

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Itinerários

Itinerários, de Thássio Ferreira, vencedor do I Concurso Literário Editora UFPR, em sua linguagem agradável, técnica refinada no uso de rimas internas e externas, ritmos cadenciados, ecos verbais e temáticos, bem como suas aliterações e assonâncias sutis, promovem uma poesia impactante que envolve e encanta.

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Mundinho

Mundinho enamorou-se da selva. Apesar dos avisos, dos interditos, das tentativas do Zé Caboclo. Zé, pescador cheio de brios, não queria o filho no rio, nem nos lagos, nas beias, nem dentro da mata. Mundinho era pra contrariar o apelido: ganhar o mundão. Apanhava de cipó pra ir à escola, não era pra ficar de pavulagem com os moleques, pelas ruas de tijolos, nos barrancos do Envira. A mãe obedecia ao marido, ralhando pra ele tomar jeito, estudar, estudar, não fosse virar homem sem ler nem escrever feito ela e o Zé.

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(DES)NU(DO)

A razão entra, sim, no cuidado de revelar a própria emoção poética, sem que a aniquile quando consumada na forma-poema.

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