As formas fugazes que talvez tivéssemos

pequena meditação, um tanto delirante, sobre os livros "A forma fugaz das mãos" (Fábio Pessanha) e "Todos os nomes que talvez tivéssemos" (Guilherme Gontijo Flores)
mãos moldando argila

As formas fugazes que talvez tivéssemos

 

Escrever sobre é diferente de escrever. Ainda assim, ainda o é. À primeira escolha (a mesma, de certa forma): sobre o quê, hesito — a hesitância é uma velha amiga. Não entre o que propriamente me atravessa, mas entre os que me fecundam. Sobre: o que em mim se multiplica. Quando: quero. Como: Consigo. Então, vou-nos.

Sophya de Mello Breyner Andresen e João Cabral de Melo Neto conheceram-se em Sevilha, salvo engano. Tinham visões diametralmente opostas sobre a poesia e as maneiras de escrevê-la. A dama do mar dizia que escutava poemas quando criança, antes de saber que alguém os havia escrito, e portanto a poesia se fizera nela como entidade, quase. Os poemas baixavam em si, perto de prontos, soprados, psicografados: mistérios de palavras. João, construtor de securas, não acreditava em inspiração e trabalhava meticulosamente, cada dia, no que estivesse a criar, desenhando para os olhos quase-equações da língua, correlações: engenharias. Disciplina, disciplina, disciplina: catar feijão.

Sophia e João tornaram-se bons amigos e admiradores mútuos. Dedicaram-se poemas, respeitavam o que nascia do processo particular alheio, sabiam: em arte, é difícil parir verdades absolutas.

Releio, porque desejo escrever algo sobre, A forma fugaz das mãos, de Fábio Pessanha. Mistérios que não compreendo, poemas que meu pensamento estranha, paisagens sonoras, passagens de uma plasticidade retorcida em origami. dizer um poema / como conceber / um ato incendiário. Algo de mantra nesses versos, não só pelo sentido, mas repare: um m que se insinua, atravessado em meio em dois oms, espraiando-se em as abertos, findando no sopro de um (pav)io. escrever como / se o céu não existisse e cada / palavra fosse um golpe na sintaxe / (…) até que o orgasmo / rompesse com o enigma / dos meus gemidos. transito pelo labirinto, Fabio diz, eu leio, ouço, aposso-me: ele não é o único. Há quanto tempo perco-me mais nas texturas de chapisco & hera dos labirintos do que no manejo de faca & formão tentando aclará-los? Deito-me — para depois: um novo dia.

 

(Interlúdio fora de ordem:

 

Um teixugo

sentou-se num sabugo

no meio do refugo

 

Por que

afinal?

 

O lunático

segredou-me

estático:

 

O re-

finado animal

acima

agiu por amor à rima

 

O teixugo estético, de Christian Morgenstein,

por Haroldo de Campos

 

Quem quiser entenda: a linguagem é bem mais que transmitir discursos informacionais & racionais. Ou como nos canta Wilberth Salgueiro: por associação acústica, o gesto poético pode se sobrepor a sentidos mais lógicos ou decodificáveis. Salgueiro continua, sobre concepções de poesia metafísica, irracionalista, transcendental, versus outras cerebrais, cartesianas — mas disso eu já falei. O que acrescento: a poesia que te encanta deve ser deleite (ainda que o deleite difícil de um desafio). Somos tantas e tantos, não creia em quem lhe diga que este poeta ou aquele livro são imprescindíveis. Ninguém tem que ler nada. Fim do interlúdio.)

Dia seguinte, Todos os nomes que talvez tivéssemos começa a me desconcertar. Tijolo. Tetralogia. Quatro livros de Guilherme Gontijo Flores reunidos em um. Sob o signo da diversidade, cerca de trezentas e trinta e três páginas ­— inexato, a mim vale mais o valor al(i)terado: dança délfica desnovelando o cânone & o contemporâneo, fragmentando fios em grãos, para depois-ao-mesmo-tempo os refundir, transfundir, (confundir) (a quente & a frio) em novos cacos de novos espelhos.

A formação do vidro é uma questão cinética, por depender estritamente do tempo, calibrado para que seus átomos não se (re)ordenem muito. Sólidos cristalinos apresentam um padrão de simetria na composição molecular. O vidro, modo diverso, é de estrutura desordenada. Que eu me organizando posso desorganizar Que eu desorganizando posso me organizar, cantou Chico (o Science, não o outro).

poesia é comer o cu do silêncio, escreve Flores, pós-moderno de plantão, ofertando — uma / forma de / benção — a promessa impossível do sentido. a ametista desabrocha / seu veio / feito falha / incrustada na druxa /esdrúxula / no cerne do fracasso do granito.

Por muito tempo, a poesia se preocupou mais em organizar os sólidos das palavras, construir cristalinos (ainda que deslocando imagens e sentidos). Depois, despreocupou-se, transparecendo em vidros remix de tempos & conjugações, libertando o aprendizados das escolas. Nada contra calcular (salve, João!), nada contra incorporar (a benção, Sophia!), e mesmo toda e qualquer desestruturação tem um tanto de ordenamento intencional e um tanto de chama nova, inapreensível. Mas a mim o jogo fica mais divertido quanto mais brincante, entrelaçando formas fugazes às mãos, aliterando todos os nomes que talvez (ou não) tivéssemos, lambendo as palavras e depois se alucinando — feito fossem barros, (de) manoel.

 

Poesia é voar fora da asa.

 

E para que serve a poesia? Para nada. Porque a vida não basta.

 

— publicado originalmente na revista Vício Velho

Livros

lagarta chã

Daí a brisa forte e sadia que vem deste novo livro de Thássio Ferreira, muito felizmente chamado lagarta chã. Algo que responde ao mundo, mas anseia o que não se contenta na resposta – antes convoca, aponta, desdobra.

O que temos aqui é, como nunca deixará de ser necessário, um encantamento múltiplo com o ponto mais chão, a coisa mais chã: das turbinas às lagartas, dos mucos às galáxias, passando pelas casas, as plantas, os poetas, os corpos, as parafernálias que fazem uma vida, muitas vidas.

(Guilherme Gontijo Flores)

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Nunca estivemos no Kansas

Vinte e dois contos que transitam por diversos cenários, relações humanas e estruturas narrativas, construindo uma cartografia de arestas e descaminhos, desde um idílio qualquer onde nunca estivemos — individual e coletivamente — até o presente e além.

Parte dos contos reunidos angariou prêmios como Off-Flip (2019) e Prêmio Cidade de Manaus (2020), foi finalista do Prêmio Sesc (2017) e publicada em veículos como Jornal Rascunho, Revista Garupa e Vício Velho.

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agora (depois)

Em seu terceiro livro, Thássio Ferreira desnovela a linha do tempo de uma história de amor, de trás para frente, em 52 poemas organizados em duas partes: um “agora (depois)” instalado com a separação; e o “agora” anterior, do início do relacionamento até sua crise. Dividindo esses dois tempos, um retrato em prosa do momento fatal em que o barco se desamarra do cais.

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Itinerários

Itinerários, de Thássio Ferreira, vencedor do I Concurso Literário Editora UFPR, em sua linguagem agradável, técnica refinada no uso de rimas internas e externas, ritmos cadenciados, ecos verbais e temáticos, bem como suas aliterações e assonâncias sutis, promovem uma poesia impactante que envolve e encanta.

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O pai e eu

Caminhávamos.

(Uma semana antes, no dia dos pais, enterráramos a companheira dele. Infarto fulminante, não sofreu. Sofríamos nós. Menos mal: os vivos sofrem sempre; ao menos os que morrem, então, não sejam obrigados a mais que esse extremo: cessar. E nós?)

E nós?:

Caminhávamos.

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