Katrina
Nem bem abri a porta, Katrina se espaventou pela cozinha, chacoalhando as bijuterias, os cabelos anelados, os saltos no piso de cerâmica, suas vogais alongadas — Bom diiiiia, maniiiiinha, como você estááá?
Oito e sete, piscou o relógio digital na parede acima da geladeira. Oito e sete, porra. Fechei a porta com cuidado, evitando mais alarde.
— Estou bem. O que você quer?
— Nooossa, alguém acordamos curta e grossa hoje, hein?! — retorquiu num sorriso de esguelha, um dos cantos da boca mais erguido que o outro. Desde pequena ela sempre foi como ambidestra de rosto: piscar só de um olho, tanto o esquerdo quanto o direito, erguer uma sobrancelha de cada vez, e esses sorrisos assimétricos: pra um lado, pro outro. Às vezes eu tentava imitar no espelho, mas mal e mal conseguia dominar o lado esquerdo.
Desfez o riso passando a língua sobre os lábios enquanto me radiografava de alto a baixo, no meu legging de academia e sutiã. Daí esticou um sorrir diferente, boca fechada, aproximando um cadinho quase nada em diagonal o rosto do ombro direito — a pele bronzeada tão bonita sob a alça do vestido.
— Cadê meu afilhado?
— Já levei na escola. Tô me arrumando pra ir na academia antes do trabalho e…
— E o Ronaldo?
— Dormindo. Ficou até tarde preparando um relatório, só vai pra empresa depois do almoço.
— Ah. — Pôs a bolsa em cima da mesa, chacoalhando, será que eu precisaria dar um tapa nela pra fazer menos barulho, meu Deus? — E você não vai me oferecer um café, maninha?
— Senta. E fala mais baixo, Katrina.
— Você sabe que eu sou quase fisiologicamente incapaz disso. Até na cama, viu? Lembra do Bruno? Ele adorava transar nuns lugares meio cheios de gente, escondido, banheiro de festa, estacionamento de shopping, eu tinha que morder o braço dele pra não chamar muita atenção.
Oito horas da manhã. Sexo em shopping, e eu nem tinha servido o café ainda. Ronaldo dizia, desde Nova Orleans, que ela fazia jus ao nome. Cada vez mais, ultimamente. O Bruno era um homão, por onde andaria? Num relampeio imaginei a cena: ele de terno, sentado no carro, e Katrina por cima, os cabelos espalhados sobre o bronzeado, nesse mesmo vestido de alcinha. Antes que pudesse afugentar a imagem, o rosto dele era o de Ronaldo.
— E o Paulinho?
Ouvi as unhas bem feitas de uma mão batendo nas da outra, aquele tlac tlac sempre me deixava alerta. Virei-me, ela não sorria mais.
— … Homem mais novo é foda, Bia. Você que tá bem, com o Ronaldo e o João. O Paulinho me deu um pé na bunda. Ontem. Disse que eu sou demais pra ele. Engraçada essa expressão, né? A gente usa tanto como algo bom, fulano é demais, esse namoro é demais, você tá feliz? demais. Aí vem um e diz que a gente é demais pra ele, sobra, não quer, não aguenta. O babaca não conseguiu nem explicar o que era demais, sabe? Qual parte. Se era assim, minha personalidade, como um todo, você me conhece, ou se era um excesso de carinho, de presença, de querer tá junto. Disse que era tudo. Demais.
— Eu… (eu também te acho demais, Katrina. Nos dois sentidos. Só que o demais pode ser perigoso) Sinto muito, mana. Você tá bem? …Você parece ótima!
— Bola pra frente, né?! Lembra do papai, como ele adorava cantar pra gente criança?: levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima! Não vou ficar chorando por causa de homem. Bom, chorei, já. Ontem. Bastante até. Mas hoje é outro dia. Vai passar. Se eu sou demais, tem muita gente aí no mundo pra esparramar meu amor. Você quer que eu te leve na academia?
— É aqui pertinho, eu vou a pé.
— Então eu vou com você. Aproveito e pergunto o preço, se me dão desconto por você já ser aluna. De quebra dou uma olhada na clientela, já que… né?! — Piscou do olho direito.
— Você nem mora nesse bairro, Katrina.
Achei que fosse redarguir, mas não. Por um momento… um hiato. Olhou as próprias mãos e alisou uma veia mais aparente, esticando a pele.
— Não tem problema, é só pra…
— Por que você não passa aqui no fim da tarde? João vai ter voltado da escola, ele te ajuda a espairecer, vocês podem assistir aquele seriado que ele te falou, Ru Paul´s Drag Race. É a sua cara, várias drag queens desfilando, produzidas, você vai amar. Ronaldo só chega tarde, eu faço pipoca pra vocês.
— Hm. Pode ser. — De novo o sorriso de boca fechada, dessa vez mais curto, antes de borrar o batom na borda da xícara. — Às cinco?
— Às seis é melhor.
Ergueu o braço esquerdo chacoalhando as pulseiras quase até o cotovelo.
— Cinco e meia, pronto! — E se levantou num repente. — Não vou te atrapalhar mais, então. Eu volto de tarde.
Pegou a bolsa e foi destrancando a porta ela mesma. Realongou as vogais ao se despedir:
— Beeeijo, maniiinha! Até logo!
Espaventou-se pelo corredor, batendo os saltos no piso, sem agradecer o café. Pipoca, preciso comprar pipoca.
— publicado originalmente na revista Vício Velho