homenagens de amor e luta

pequenas grandes reverências
quadro abstrato com manchas coloridas sobre fundo branco

(I) Depois dos poemas para cantoras e cantores, pequenas homenagens literárias, porque tudo é canto

 

 

 

# o menino e o poeta
(para João Luiz de Souza)

o menino, com seus olhos
feito perguntas em espanhol
— o esquerdo uma interrogação
de cabeça pra baixo, o outro
uma interrogação ao mundo
de cabeça pra baixo — chegou

dentro do poema

e indagou
: onde estamos?

em um cálculo matemático
— respondi

aprendi
com um poeta
(que não o era)
que dentro de tudo
construído pelo homem
estamos sempre dentro
de um cálculo matemático

 

# línguas sem limites
                            (para Luís Turiba)

leio em luís
um verso assim:
língua afiada a Machado
–– um achado, porra!
e par de linhas
logo após
outro petardo:
a coisa mais Língua que existe
–– e o poeta torto
coxo, fraco
não resiste:
rouba os versos
na cara de pau
pois o tesão da poesia
(pica dura na ponta da língua)
não tem limites!

 

 

# sobre amores

na Catalunha
— segundo me sopra
a revista philos —
há uma poeta
(talvez senhora):
Gemma Gorga
autora de uma
pequena rosa
invertida:
poema que se
inicia raízes
caule espinhos
e se entreabre em:
o amor me faz de lupa

venturosa, dona
Gemma Gorga
o amor só me faz de trouxa

 

 

# Pessoa, c’est moi

a cada pé d’água e meio
encolhido, teso
sob um guarda-chuva estreito
sou Fernando Pessoa:
lábios vincados
ensimesmado
sério, mui sério
contra o aguaceiro

 

 

# apropriações

assim como Pierre Menard
reescreveu o Quixote
— na versão de Borges —
sem lhe alterar
vírgula ou sílaba sequer
eu me aproprio
e vos digo:
sou mais que poeta
(mais que Pessoa)
o próprio poema
em linha reta

 

 

(II) Depois de poemas para vozes que cantam e poemas para poetas de sempre, afetos em versos para corpos no mundo, tentativas de traduzir o que não se explica: conexões sentidas

 

# meninos no pomar
(eu & gabriel)

peguei jambo pá tu
fieira de arcanos
todo malícia
e o tempo sumia

desembestado
(que nunca (ia))

 

#
poema do encantado
(para bruno spadoni)

acho que você
ficaria feliz
em saber
que tinha um enorme
potencial
de me causar poemas

talvez até bons

(inclusive ensaiei alguns
assim, meio oblíquos
de quina, improviso)

antes de:
desaparecer

 

# para cadu

tinha ao peito
— mas poderia
ser à coxa
à bunda
às costas
(ao cangote)
gravado nas pupilas
hipnóticas ou nele todo

uma tatuagem
em dinamarquês:

aproveitar os pequenos
momentos da vida

(numa pronúncia meio
pra dentro: escandinava
dizia
mas todo modo conve-
nientemente direta
digo):

hygge

 

# quandos

à noite
à janela e ao espelho
ou às nove da manhã

quandos ninguém
me olha e estou só
comigo mesmo

sinto saudades suas
seu filho da puta

 

 

 

(III) Para quem lutou, está lutando e/ou precisa de algum alento, porque a vida coletiva é a complicação nossa multiplicada por outrem, porque pode a poesia ser lava e eletricidade, quatro anos depois e ainda antes, ontem é sempre amanhã pois tudo é hoje e a importância da vida é agora, pelas palavras que não consigo articular, inalcanço três poemas, um à beira do desastre, outro enquanto o pesadelo (lúcido) se desenrola-vá! e mais outro, a arrancar força do tutano que os dentes não têm, sorriso e mordida a desenhar o futuro. Para vocês:

 

antevéspera
(para Fernanda Nader Garavini)

antevéspera de eleição:
caminho nos jardins
do museu perto à casa

ainda há jardins
ainda há museus
ainda tenho pernas
embora casa já pareça
palavra (ideia) estranha
deslocada
em ruínas

uma criança
atrás de uma samambaia
escondida
(frágil proteção):

há medo
no rosto dela
(há tanto medo
por esses dias)

estamos brincando
(estamos?)
de pique-esconde
por favor
não me denuncia

denunciar: palavra estranha
na boca de uma criança
acho que aprendeu na tv
tantos escândalos:
fulano furtou um boi
enquanto boiadas passam

sorrio, ocultando
meu próprio medo:
conta comigo
não vou te denunciar

 

 

# corpus

eu não trouxe cartazes

nem o megafone
que comprei exato
para ocasiões assim
— e outras pelas quais
meu sangue (de ressaca)
também se encrespa —
porque tampouco
minha voz eu trouxe:

anda perdida
em tantos sopros
de esquecimento
que a carne o corpo
em transe alcançam

não trouxe meu
grito portanto
e nem mesmo hoje
minha simpatia:
não trouxe (muitos) sorrisos
nem muitos abraços
nem olhares convite
e cumplicidade
a cruzarem as pistas
da avenida, me atravessarem:
pedestres de pés alados

não trouxe a fome
de movimentos que cheiro
sobre o asfalto, pela multidão
em meu próprio corpo
em outros momentos

não trouxe muito alento
nem muita esperança
como noutros tempos
— tem sido difícil —
nem nada muito etéreo
— palavras, gestos —
nem qualquer objeto
além da roupa do corpo

mas trouxe precisamente
porque é preciso, isso:
meu corpo. o corpo:
eu
ocupando a rua, a urbe
o tempo talvez
como quem grita, gesticula
empunha cartazes, megafones
e olhares dizendo
não

atento
forte
temendo sim, porque temo
— we’re not that strong, my lord —
mas em riste, existindo
todo o tempo
contra a morte
— e seus consortes

 

 

# o músculo do sorriso é o mesmo da mordida

a dentista despoetiza
minha mandíbula:
foi preenchimento?

foi não

e bem sei
quanto dói
essa força do
músculo do sorriso

(outro dentista já
havia reparado)

a mordida também
tem o peso
de mil desejos
e suas angústias

nisso penso
(dentro da música)
frente à luta
tão rente
de outubro
de dois mil
e vinte e dois

Livros

lagarta chã

Daí a brisa forte e sadia que vem deste novo livro de Thássio Ferreira, muito felizmente chamado lagarta chã. Algo que responde ao mundo, mas anseia o que não se contenta na resposta – antes convoca, aponta, desdobra.

O que temos aqui é, como nunca deixará de ser necessário, um encantamento múltiplo com o ponto mais chão, a coisa mais chã: das turbinas às lagartas, dos mucos às galáxias, passando pelas casas, as plantas, os poetas, os corpos, as parafernálias que fazem uma vida, muitas vidas.

(Guilherme Gontijo Flores)

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Nunca estivemos no Kansas

Vinte e dois contos que transitam por diversos cenários, relações humanas e estruturas narrativas, construindo uma cartografia de arestas e descaminhos, desde um idílio qualquer onde nunca estivemos — individual e coletivamente — até o presente e além.

Parte dos contos reunidos angariou prêmios como Off-Flip (2019) e Prêmio Cidade de Manaus (2020), foi finalista do Prêmio Sesc (2017) e publicada em veículos como Jornal Rascunho, Revista Garupa e Vício Velho.

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agora (depois)

Em seu terceiro livro, Thássio Ferreira desnovela a linha do tempo de uma história de amor, de trás para frente, em 52 poemas organizados em duas partes: um “agora (depois)” instalado com a separação; e o “agora” anterior, do início do relacionamento até sua crise. Dividindo esses dois tempos, um retrato em prosa do momento fatal em que o barco se desamarra do cais.

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Itinerários

Itinerários, de Thássio Ferreira, vencedor do I Concurso Literário Editora UFPR, em sua linguagem agradável, técnica refinada no uso de rimas internas e externas, ritmos cadenciados, ecos verbais e temáticos, bem como suas aliterações e assonâncias sutis, promovem uma poesia impactante que envolve e encanta.

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