drops de prosa

# Num dia verde, porque verde é a cor da cura, acordou e voltou a ter vontade de viver. Foi feliz, por um tempo. Movia-se, como um gato. Depois entristeceu de novo. ...
balas drops espalhadas em superfície de madeira

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Num dia verde, porque verde é a cor da cura, acordou e voltou a ter vontade de viver. Foi feliz, por um tempo. Movia-se, como um gato. Depois entristeceu de novo.

 

 

# do cacto

— Olha, mana.

— Tá minando…

— Será se é água mesmo?

Primeiro o dedo na pocinha, quase encabulada ainda de escorrer pouco a pouco sobre o concreto. Na língua a surpresa, e desce o dedo até a gota e engordando pendente do cacto. Ele sente o mesmo arrepio gostoso que a irmã, antes que ela diga.

— Tem gosto de… mel.

— Deixa eu provar.

Raspa o dedo no áspero. Lambe.

— A gente conta pra mãe?

— Mas ela não vai sentir o gosto…

 

 

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Perdoar deus por nos ter existido: esta doência infinda delícia, como um clarão no mais fundo escuro onde nem mais palavras como clarão, escuro ou qualquer outra têm sentido que dirá sentimento.

 

 

# frases de um fim de semana

“enquanto eles tavam no Togo, a menina foi ao banheiro e nunca mais voltou”

“esfregação genital é opcional”

“eu lembro de um aniversário do Félix… eu nem tava nesse aniversário”

“tá mais tirulim que pan”

“é a regra do quintal, mana, não a tua. tem que respeitar a regra do lugar.”

 

 

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Não é que eu buscasse uma transcendência qualquer nos corpos em que antes buscava apenas sofreguidão. Mas algo sobre eles, além de si próprios, agora me interessava. Melhor: instigava. Inquiria sobre o além daqueles corpos.

E o carnaval mal havia começado.

 

 

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— Nao é acarajé, é bolinho de Jesus.

— É o quê?

— Bolinho de Jesus.

— Ah, vai se foder — eu não disse, porque afinal é preciso ser didático e preferir a comunicação não-violenta, mas antes que eu não dissesse, pude quase ver-me, claroaguda, a dizer. Contive-me, a custo e calma, e o que disse então, com certa dose tentativamente calibrada de irritação na voz, porque afinal também não sou santa, e além do mais, um quê de tome-tenência me facilitaria o trabalho, o que eu disse então foi:

— Olha, mona, eu respeito a tua religião e tu respeita a minha, ora veja!

 

 

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De noite tinha os sonhos mais prosaicos. Nunca voava, nem comia estrelas (de cinema ou nêutrons), não visitava Istambul entendendo-se com todos à sua volta numa língua inexistente. Facas do dia a dia, diálogos sem tesão, lampejos, lacunas, as plantas do quintal, com seus nomes mesmo, era dos restos mais baços de quando acordado a carne dos seus sonhos. Triste

Livros

lagarta chã

Daí a brisa forte e sadia que vem deste novo livro de Thássio Ferreira, muito felizmente chamado lagarta chã. Algo que responde ao mundo, mas anseia o que não se contenta na resposta – antes convoca, aponta, desdobra.

O que temos aqui é, como nunca deixará de ser necessário, um encantamento múltiplo com o ponto mais chão, a coisa mais chã: das turbinas às lagartas, dos mucos às galáxias, passando pelas casas, as plantas, os poetas, os corpos, as parafernálias que fazem uma vida, muitas vidas.

(Guilherme Gontijo Flores)

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Nunca estivemos no Kansas

Vinte e dois contos que transitam por diversos cenários, relações humanas e estruturas narrativas, construindo uma cartografia de arestas e descaminhos, desde um idílio qualquer onde nunca estivemos — individual e coletivamente — até o presente e além.

Parte dos contos reunidos angariou prêmios como Off-Flip (2019) e Prêmio Cidade de Manaus (2020), foi finalista do Prêmio Sesc (2017) e publicada em veículos como Jornal Rascunho, Revista Garupa e Vício Velho.

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agora (depois)

Em seu terceiro livro, Thássio Ferreira desnovela a linha do tempo de uma história de amor, de trás para frente, em 52 poemas organizados em duas partes: um “agora (depois)” instalado com a separação; e o “agora” anterior, do início do relacionamento até sua crise. Dividindo esses dois tempos, um retrato em prosa do momento fatal em que o barco se desamarra do cais.

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Itinerários

Itinerários, de Thássio Ferreira, vencedor do I Concurso Literário Editora UFPR, em sua linguagem agradável, técnica refinada no uso de rimas internas e externas, ritmos cadenciados, ecos verbais e temáticos, bem como suas aliterações e assonâncias sutis, promovem uma poesia impactante que envolve e encanta.

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