maestrina & retrato de moça no vagão

duas prosas curtas, pequenos esboços de mulheres

Maestrina

Por vezes ela se empolgava, narrando algo, nesse tesão que nos atiça desde a primeira mulher nascida diferente de sua mãe, assim: humana — sendo evidente que a primeira humana foi mulher, só não me peçam as evidências — e mesmo que a mãe de todas nós ainda não tivesse a linguagem com que narrar e gozar esse tesão que ela nem sabia inaugurar, tenho certeza: também se empolgava, tentando, querendo, inalcançando — o que talvez até hoje a gente siga mais que conseguindo, e talvez até isso seja parte da empolgação, mas ela se entusiasmava como poucos, torrente caudalosa ritmada, palavras como chuva a galope, música sem partitura tecendo-se a partir do próprio movimento dos lábios, ao correr da língua, regente e orquestra inteira no som daquela voz a nossos ouvidos atentos, até que tropeçou:

— … maestral (!) –– a boca ainda aberta, feito dedo exato na guitarra sem mover-se, bochecha inchada no trompete, arco de violino a meio voo rumo à corda, mão suspensa sobre a pele do tambor. Inclinou levemente a cabeça, em desconcerto:

— Maestral… Existe essa palavra?

Eu, sedento, interessado mais na música que no sentido, muito!, querendo seguir gozando meu tesão de ouvir como o segundo ser humano (talvez um homem) ouvindo a primeira ser humana em seu gozo de narrar, respondi-lhe breve:

— Isso importa?

Sorriu.

E a música se refez em seus lábios.

 

 

Retrato de moça no vagão

Ela chora, encolhida contra a parede do vagão, apoiada numa perna esticada, tesa, enquanto a outra, semi-flexionada, vibra nervosamente.

Usa um vestido de Rorcharsch: naquele pranto, o fundo negro do tecido, seu corte reto e certa poeira cinza agarrada à barra dão-lhe ar de angustiado desamparo, quase um luto moderno sob a dor movendo-se sobre a pele. Mas a quem não lhe reparasse o rosto, ou lhe flagrasse em sorriso, num outro dia, num outro vagão, a estampa florida com seus amarelos e laranjas diria em voz risonha algum desenho mais alegre.

Colado ao rosto: o celular. Uma presença que não é bem presença — tão distante e tão próxima (ali, logo ali) do meu olhar pungido — desenha-lhe estampa de aquarela na face, fios d’água escorrendo, os cantos da boca crispados, cabelo desarrumado caindo-lhe um pouco sobre os olhos.

Fala, abafadamente, tudo é tão abafado neste vagão, e não ouço, como não ouço aquela presença em voz que lhe chega pelo telefone.

Não ouço, mas vejo, em meio a tanta gente que não vê as gentes outras ao redor: ela chora. Uma moça chora à minha frente, no metrô de fim de tarde. Não desvio os olhos, mas por razões diversas das tuas, que percorre essas linhas buscando saber o que aconteceu ou acontecerá em seguida: não preciso entender. Olho-a chorar, apenas, tão misteriosamente humana e incompreensível quanto eu. Até que chega minha estação.

— publicado originalmente na revista Vício Velho

Livros

lagarta chã

Daí a brisa forte e sadia que vem deste novo livro de Thássio Ferreira, muito felizmente chamado lagarta chã. Algo que responde ao mundo, mas anseia o que não se contenta na resposta – antes convoca, aponta, desdobra.

O que temos aqui é, como nunca deixará de ser necessário, um encantamento múltiplo com o ponto mais chão, a coisa mais chã: das turbinas às lagartas, dos mucos às galáxias, passando pelas casas, as plantas, os poetas, os corpos, as parafernálias que fazem uma vida, muitas vidas.

(Guilherme Gontijo Flores)

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Nunca estivemos no Kansas

Vinte e dois contos que transitam por diversos cenários, relações humanas e estruturas narrativas, construindo uma cartografia de arestas e descaminhos, desde um idílio qualquer onde nunca estivemos — individual e coletivamente — até o presente e além.

Parte dos contos reunidos angariou prêmios como Off-Flip (2019) e Prêmio Cidade de Manaus (2020), foi finalista do Prêmio Sesc (2017) e publicada em veículos como Jornal Rascunho, Revista Garupa e Vício Velho.

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agora (depois)

Em seu terceiro livro, Thássio Ferreira desnovela a linha do tempo de uma história de amor, de trás para frente, em 52 poemas organizados em duas partes: um “agora (depois)” instalado com a separação; e o “agora” anterior, do início do relacionamento até sua crise. Dividindo esses dois tempos, um retrato em prosa do momento fatal em que o barco se desamarra do cais.

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Itinerários

Itinerários, de Thássio Ferreira, vencedor do I Concurso Literário Editora UFPR, em sua linguagem agradável, técnica refinada no uso de rimas internas e externas, ritmos cadenciados, ecos verbais e temáticos, bem como suas aliterações e assonâncias sutis, promovem uma poesia impactante que envolve e encanta.

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